Tanto os estudantes como os profissionais colocam muitas
vezes a questão sobre o estabelecimento dos limites, o não envolvimento
afectivo com a pessoa ou a família que beneficia dos cuidados. O assunto é
complexo, mas talvez possa ser analisado em duas frentes problemáticas. Por um
lado, estão as questões de bem-estar e segurança do enfermeiro e por outro, as
questões éticas da profissão.
Alguns estudos mais recentes têm incidido sobre os problemas
emocionais e de desgaste profissional associados à síndrome de burnout, e mesmo que as manifestações
não sejam tão explícitas, detectam-se sentimentos de negatividade, face à
profissão, manifestados por comportamentos de evitamento dos pacientes ou a
redução do contacto a actividades em que a técnica e a tecnologia servem de
objectos intermediários.
A ética da profissão exige que se ofereça ao paciente o
nível mais elevado de cuidados, não por qualquer favor ou compaixão do
enfermeiro, mas porque é um direito seu. Os enfermeiros prestam um serviço com
determinadas características, que é único e exclusivo da enfermagem, com
regulação legal e deontológica. A natureza dos cuidados implica normalmente uma
grande aproximação da pessoa que chega muitas vezes à zona de intimidade física
e sobretudo emocional. Não é fácil para ambas as partes.
Para o paciente isso significa reconhecer no profissional,
um grande aliado e entregar-se confiando que a sua dignidade será respeitada.
Para o profissional é sempre um grande desafio no qual terá de gerir também as
suas emoções. O cliente poderia ser um filho nosso, um pai, uma mãe, um avô,
mas não o é. E talvez esse seja, para o enfermeiro, o primeiro e o importante
limite da relação terapêutica. Ainda que seja reconhecido, desde Peplau um
papel de substituto – o enfermeiro
desempenha, temporariamente, o papel de alguém que falta à pessoa – essa é uma
representação consciente com fins de ajuda terapêutica, que só se consegue
quando o enfermeiro tem uma elevada consciência dos limites da relação, mas não
só. Consegue comunicá-los ao paciente sem ambiguidades.
A problemática dos limites da relação profissional está
fortemente ligada a outros aspectos da aprendizagem como o auto-conhecimento e
a auto-consciência. Como se podem desenvolver essas aprendizagens?
Os jovens estudantes de enfermagem são muitas vezes lançados
precocemente no contacto com a profissão real com tudo o que ela tem de belo e
também de assustador. Conhecem boas práticas e também muito encorajamento a
práticas e atitudes pouco correctas por parte de alguns profissionais. A sua
impreparação e até imaturidade emocional confere-lhes uma grande
vulnerabilidade. Podem até questionar-se, ter consciência das suas limitações,
mas o mais natural é que, muito legitimamente, respondam de forma defensiva e
estruturem esses mecanismos, porque funcionam.
Wendy McIntosh é especialistas nesta área dos limites da
relação profissional com bastante experiência na formação de enfermeiros na
área da saúde mental Nos cursos e workshops que faz em vários locais da
Austrália e também do Canadá, analisa os depoimentos dos formandos, após a
formação, nos quais sobressai, numa parte a referência à consciência da diminuição
do seu estado de negatividade face aos clientes e, para outros, uma espécie de
alívio face ao estabelecimento de limites. Quando esses limites são reflectidos
e interiorizados, o comportamento profissional torna-se mais natural,
distendido, espontâneo. Podemos imaginá-lo também, mais próximo e mais seguro.
Quando falamos do uso terapêutico do self como uma
intervenção de natureza relacional em que o enfermeiro usa a sua própria pessoa
como instrumento de trabalho, isso é bem mais complexo que escrevê-lo assim
numa frase. O que isso envolve está muito para além do alcance do que é
possível atingir com aulas, mesmo que sejam práticas ou teórico-práticas. O
trabalho de desenvolvimento da auto-consciência exige uma entrega do estudante
com alguma semelhança com o que reconhecemos no contexto da relação
terapêutica. O auto-conhecimento transforma-nos; é um processo de crescimento
de desenvolvimento pessoal que não é substituível por informação ou aquisições intelectuais.
Carl Rogers chamava a atenção para um curioso paradoxo em que será necessário um
conhecimento e uma aceitação de si próprio para poder mudar. É essa mudança para
um nível de auto-consciência que nos capacita para gerir os limites e usar
terapeuticamente o self.
Mc Intosh acredita que este processo de relação com os
limites, ao contrário do que talvez se pudesse imaginar, é favorecido por uma
boa compreensão da teoria do apego ou da vinculação, iniciada pelo psicólogo do
desenvolvimento, John Bowlby, a partir da sua primeira publicação em 1958. Tem
particular importância por se tratar de relações assimétricas que correm o
risco de se tornarem paternalistas e superprotectoras em vez de promoverem a
autonomia. A referida autora, cita Nancy Schimelpfening, para nos ajudar a
compreender a noção de limites aplicada ao domínio pessoal e profissional:
Os limites são o espaço
emocional e físico que colocamos entre nós e os outros. Definir limites
adequados é importante para a nossa saúde mental. Quando não são definidos os
limites apropriados, corremos o risco de nos tornarmos muito distantes ou muito
dependentes dos outros (*).
(Schimelpfening, 2007, cit. em Wendy’s blog)
Referências
McIntosh, Wendy (2013). Are you
Crossing the Line? In Dr Wendy's Blog, Nursing,
8 April. http://davaar.com.au/dr-wendys-blog/crossing-the-line/
Rogers, Carl (1980). Tornar-se Pessoa. 5ªed., Lisboa: Moraes
Editores.
(*) [Boundaries are the emotional and physical space that we place between
ourselves and others. Setting proper boundaries is important to our mental
health. When appropriate boundaries are not set, we run the risk of becoming
either too detached from or too dependent upon others.]