quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Cuid'Arte

Sigo habitualmente alguns sites relacionados com a chamada "Medicina Narrativa". É uma designação que não me parece boa, por ser redutora, mas o que me interessa é o conteúdo e o que ele pode interessar aos profissionais de saúde em geral e, em particular, aos enfermeiros. Se pesquisarmos por Nursing Narrative ou Narrative Nursing, encontramos muitos milhares de referências, ainda que nem todas se enquadrem na perspectiva que esta expressão designa.
Serve esta introdução para dar conta do prazer que me deu ler um belo texto (perdoo-lhe o 'Acordo Ortográfico'), publicado ontem, 10 Setembro, 2019, no site Comunidade Cultura e Arte, com o título Medicina e arte: uma ligação necessária, de autoria de Teresa Tomaz, uma médica de família.
É um testemunho e uma reflexão com alguns alertas para certas armadilhas da comunicação que todos os profissionais deviam ler e refectir sobre.
Muito do que é aqui escrito reforça o sentido de algumas das coisas que faço e de outras que não faço e desejaria fazer, na formação dos enfermeiros. 
A ideia de que, para cuidar de pessoas, é preciso "ter mundo", isto é, conhecer muito mais do que aquilo que se aprende nos manuais e nas aulas, aquilo que muito impropriamente se designa por "matéria" e que é passível de avaliação (?) através de uma prova ou de um exame, deve ser o esteio principal da formação. Isto é uma teoria geral. Tudo o resto, sendo imprescindível, será sempre acessório. O contrário é uma teoria errada.
Há já muito trabalho produzido nas duas últimas décadas, com mais visibilidade no campo da Medicina. Em Portugal, destaco o papel do professor João Lobo Antunes, ainda que, ao que julgo saber, não utilizasse a expressão Medicina Narrativa - o nome deve-se a Rita Charon, uma médica internista americana a quem se deve a iniciativa desta corrente dentro da Medicina, a nível global. 
A enfermagem tem na sua essência esta matriz. O cuidado orientado e centrado na pessoa implica considerar de forma primordial o que a pessoa diz sobre si própria, sobre as suas angústias, o seu sofrimento e sobre o significado que a experiência tem na sua vida.

Quando médicos e enfermeiros trabalharem nesta perspectiva, algo estará a mudar nos cuidados de saúde e, provavelmente, na sociedade.
Enquanto profissionais de distintas profissões andarem entretidos a discutir a autoridade e o mando e as fronteiras das suas competências e a pertenças dos actos e das intervenções, não pode ser verdade que prestam cuidados de saúde orientados para a pessoa.



É difícil definir a solidão que define o trabalho dentro dum consultório. Os profissionais de saúde trabalham em equipa, e os cuidados de saúde primários não são exceção. Porém, fora dos corredores do hospital, o trabalho assistencial dum médico ou dum enfermeiro de família exige várias horas dentro duma sala a sós com o doente ou o doente e a sua família. Depressa percebi que as pessoas traziam consigo muitos motivos de consulta, e alguns não estavam diretamente relacionados com queixas físicas ou psicológicas. Às vezes relacionavam-se com problemas familiares, financeiros ou sociais. Recordo as primeiras consultas que conduzi sozinha com um receio que me perturbava: temia ter de dar uma má notícia, de lidar com emoções fortes, com tristeza, raiva, angústia.

O artigo pode e deve ser lido na íntegra aqui.





sexta-feira, 5 de julho de 2019

Grande desafio!




(anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me
uma pérola no coração. Mas estou só, muito só,

não tenho a quem a deixar.)

- Al Berto  - Salsugem

Hoje quero apenas deixar um registo de um grande acontecimento.
A organização deste evento - os estudantes do 3º ano do CLE mais a Comissão Científica - proporcionou-me uma experiência extraordinária, aquilo a que se chama uma peak experience, ou seja, um momento de crescimento. Por isso, sinto-me grato. Não sei bem a quem, porque isto não é simples de contar. É a minha experiência toda, hoje recapitulada com tanta gente importante a visitar-me e a dizer-me coisas de tantos anos.
Entrei de manhã no auditório e começo a reconhecer caras (e os nomes a fugirem-me da memória porque algumas não via há muito) de antigos alunos e começaram os abraços com números de vinte e tal e trinta e tal anos, quase sussurrados, não fosse alguém dos mais novos perceber que já cá andamos há tantos anos… Mas quando se reúnem na mesma sala estudantes actuais com a mãe e sogro que foram antigos alunos estamos inevitavelmente descobertos e ficamos todos libertos…
Mas não sei se é bem disto que quero escrever. Aliás, não sei nada sobre o que quero escrever e talvez me deixe ir nesta desordem dos sentidos e do pensamento, como a água que corre por onde calha.
Sou habitualmente muito ligado à história e sou-o de uma forma que pretende compreender o olhar de quem vive determinados acontecimentos. Afinal o que é que podemos saber da história do mundo? Apenas o que alguém nos conta. Ou que alguém deixou registado, ou o que julgamos que dizem os objectos… Hoje falava-se de Cuidados de Saúde Primários e passou-se em revista a sua história e (hélas!) falou-se de narrativas e eu a fazer viagens no tempo e a reencontrar pessoas que estas pessoas de agora nunca terão encontrado. É melhor explicar isto.
Entrei para o Curso de Enfermagem em Janeiro de 1977 e saí em Março de 1980. Durante este curso, aconteceu Alma-Ata e foi criado o SNS português. Na altura nem se notou assim muito, mas já se fazia estágios em Centros de Saúde que tinham várias "valências" e diversas extensões à comunidade, em particular nos meios rurais. A Saúde estava numa Secretaria de Estado no Ministério dos Assuntos Sociais e as pessoas iam aos Serviços Médico-Sociais dizendo que iam ao "médico da Caixa", porque se habituaram a chamar assim desde tempos antigos da "Caixa de Previdência".
Hoje falou-se várias vezes de "paradigma" e de "mudança de paradigma" e levei quase todo o dia a pensar que, na verdade a verdadeira mudança de paradigma em termos de cuidados de saúde da população tinha acontecido depois de 1971, quando as pessoas sem posses começaram a poder aceder aos Centros de Saúde em vez de terem disporem apenas da assistência caridosa, mais ou menos por via da acção das Misericórdias espalhadas pelo país. Mesmo assim, a história não é assim tão simples de contar, porque coexistiam diferentes modalidades, incluindo uma acção profiláctica do Estado no domínio do que era na época o conceito de Saúde Pública.
Quero voltar ao final dos anos 70 e ao Curso de Enfermagem, o primeiro de um novo plano de estudos, o de 1976, que terá sido porventura o mais revolucionário da história do Ensino de Enfermagem em Portugal. Dois meses após o início do curso, num primeiro ano todo ele dedicado ao estudo de "O Homem - A Sociedade - A Saúde", íamos em pequenos grupos, quase viver para uma comunidade urbana ou rural durante quatro semanas, já com conhecimentos básicos enfermagem (Enfermagem I - Enfermagem na Comunidade), Psicologia, Sociologia, Nutrição...  Mais de quarenta anos depois, ainda acho isto bastante avançado. É verdade que ainda não aprofundávamos muito os aspectos conceptuais da enfermagem que não iam muito além do modelo de Henderson, estrondosamente parasitado e ofuscado um modelo de Processo de Enfermagem da brasileira Wanda Aguiar Horta que tinha toda a vantagem de se exprimir em português e era doutora em enfermagem. Já estou a ir por outros caminhos e um dia hei-de escrever sobre isto. O que me importa hoje é mesmo a Enfermagem e a Comunidade (o Curso de Pós-Licenciatura e Especialização em Enfermagem Comunitária também se encerrava hoje) e o turbilhão de emoções que ainda não consigo sossegar. É que, apesar de me ter iniciado profissionalmente na enfermagem hospitalar, a ideia da comunidade, a visão da autonomia da profissão sempre se realizou na enfermagem na comunidade. Toda a minha vida discuti isso com tanta gente e hoje tive testemunhos de projectos na comunidade que estão na linha do que sempre sonhei.
Este encontro "+Enfermagem", na forma como foi organizado, como decorreu e pela qualidade científica e pragmática enche-me a alma, ou o coração ou seja lá onde for que se aloja esse sentimento misto de orgulho e gratidão. Senti isso também em algumas colegas e em muitos estudantes. Vários o verbalizaram e as lágrimas que por ali correram foram eloquentes. Senti, acho que pela primeira vez em muitos anos, uma partilha e uma coesão que, nos meus sonhos surge como uma espécie de exigência mínima para que alguma coisa possa ter o nome de "Escola".
Ontem andei com uma t-shirt trazida do FOLIO de Óbidos com a seguinte inscrição:

Há entre os utopianos uma quantidade de coisas que eu aspiro a ver estabelecidas nas nossas cidades… Aspiro mais do que espero. 
(Thomas Morus, no final de Utopia).



Talvez signifique alguma coisa.









quinta-feira, 21 de março de 2019

Antonio Damasio: A busca para entender consciência




Into the black box. Muitas das teorias sobre o que somos e o que comunicamos, sobre a forma como representamos o real foram desenhadas no pressuposto de que não era possível observar a mente em funcionamento. O estudo da mente tem-se feito através dos outputs sejam eles respostas comportamentais ou fisiológicas, mais ou menos à semelhança do que acontece com a caixa negra. A mente continua a ser algo muito complexo que de aproximação em aproximação vai sendo desvendado os seus mistérios. Os estudos no âmbito das neurociências vai revelando como vemos e representamos o mundo a partir da consciência do nosso corpo e dos nossos processos. O nosso cérebro parece estar equipado para preencher espaços em branco e isso pode até explicar as diferentes perspectivas sobre uma mesma realidade, mas fica-me tanto para compreender.
Qual será o problema da humanidade? Das guerras, da fome, do fanatismo?... Será do córtex?

Conferência de António Damásio

O Cérebro, o Corpo, e a Naturalidade da ConsciênciaCiclo Diálogos do cérebro – encontros de mentes diversas

Dom, 2 junho 2019 -  18:30 até 19:30 Entrada gratuita sujeita à lotação do espaço
Fundação Calouste Gulbenkian