Serve esta introdução para dar conta do prazer que me deu ler um belo texto (perdoo-lhe o 'Acordo Ortográfico'), publicado ontem, 10 Setembro, 2019, no site Comunidade Cultura e Arte, com o título Medicina e arte: uma ligação necessária, de autoria de Teresa Tomaz, uma médica de família.
É um testemunho e uma reflexão com alguns alertas para certas armadilhas da comunicação que todos os profissionais deviam ler e refectir sobre.
Muito do que é aqui escrito reforça o sentido de algumas das coisas que faço e de outras que não faço e desejaria fazer, na formação dos enfermeiros.
A ideia de que, para cuidar de pessoas, é preciso "ter mundo", isto é, conhecer muito mais do que aquilo que se aprende nos manuais e nas aulas, aquilo que muito impropriamente se designa por "matéria" e que é passível de avaliação (?) através de uma prova ou de um exame, deve ser o esteio principal da formação. Isto é uma teoria geral. Tudo o resto, sendo imprescindível, será sempre acessório. O contrário é uma teoria errada.
Há já muito trabalho produzido nas duas últimas décadas, com mais visibilidade no campo da Medicina. Em Portugal, destaco o papel do professor João Lobo Antunes, ainda que, ao que julgo saber, não utilizasse a expressão Medicina Narrativa - o nome deve-se a Rita Charon, uma médica internista americana a quem se deve a iniciativa desta corrente dentro da Medicina, a nível global.
A enfermagem tem na sua essência esta matriz. O cuidado orientado e centrado na pessoa implica considerar de forma primordial o que a pessoa diz sobre si própria, sobre as suas angústias, o seu sofrimento e sobre o significado que a experiência tem na sua vida.
Quando médicos e enfermeiros trabalharem nesta perspectiva, algo estará a mudar nos cuidados de saúde e, provavelmente, na sociedade.
Enquanto profissionais de distintas profissões andarem entretidos a discutir a autoridade e o mando e as fronteiras das suas competências e a pertenças dos actos e das intervenções, não pode ser verdade que prestam cuidados de saúde orientados para a pessoa.
Enquanto profissionais de distintas profissões andarem entretidos a discutir a autoridade e o mando e as fronteiras das suas competências e a pertenças dos actos e das intervenções, não pode ser verdade que prestam cuidados de saúde orientados para a pessoa.
É difícil definir a solidão que define o trabalho dentro dum consultório. Os profissionais de saúde trabalham em equipa, e os cuidados de saúde primários não são exceção. Porém, fora dos corredores do hospital, o trabalho assistencial dum médico ou dum enfermeiro de família exige várias horas dentro duma sala a sós com o doente ou o doente e a sua família. Depressa percebi que as pessoas traziam consigo muitos motivos de consulta, e alguns não estavam diretamente relacionados com queixas físicas ou psicológicas. Às vezes relacionavam-se com problemas familiares, financeiros ou sociais. Recordo as primeiras consultas que conduzi sozinha com um receio que me perturbava: temia ter de dar uma má notícia, de lidar com emoções fortes, com tristeza, raiva, angústia.
O artigo pode e deve ser lido na íntegra aqui.
