Encontrei, mais ou menos por acaso, a publicação de um projecto de um grupo de investigação, o GIDEA (Grupo de Investigação e Desenvolvimento da Enfermagem em Acção) da Escola Superior de Enfermagem de Santarém (2003), constituído alguns colegas docentes meus conhecidos e também enfermeiros em exercício nos estabelecimentos de saúde. Porque o trabalho me parece interessante, não só pelo seu conteúdo, mas pelo facto de resultar de um projecto no âmbito de uma parceria institucional, reproduzo (mesmo sem a devida permissão e apenas para efeito de divulgação) o resumo do trabalho, cujo conteúdo integral pode ser acedido para leitura aqui.
RESUMO
O tema em estudo – Conhecer os Instrumentos Básicos. Um contributo para a disciplina de Enfermagem, partiu do questionamento teórico – metodológico: O que são os Instrumentos Básicos para os diferentes intervenientes, na construção da disciplina de enfermagem? Que estatuto é atribuído aos Instrumentos Básicos no âmbito da disciplina de Enfermagem? Tivemos como objectivo – contribuir para clarificação da estrutura da disciplina de enfermagem, nas componentes profissional e académica. A disciplina de enfermagem com duas componentes (académica e profissional), integra-se na fundamentação teórica de que qualquer disciplina se estrutura em três dimensões – os conceitos, os métodos e os instrumentos. A componente académica é suportada pelo desenvolvimento do conhecimento científico, alimentado pela e alimentando a componente profissional, assumindo-se o posicionamento teórico na perspectiva dos Domínios do Conhecimento do cuidado de enfermagem no processo de cuidados, de acordo com Carper (1990); Martin (1996); Swanson (1997) e Amendoeira (2000). É um estudo exploratório e descritivo, no qual optámos pela combinação de métodos de natureza quantitativa (questionário), com métodos de natureza qualitativa (análise de conteúdo), que nos permitiu utilizar a triangulação entre os métodos, as perspectivas teóricas e os resultados, conducentes a conclusões válidas a propósito do fenómeno em estudo. O universo do estudo constitui-se por três populações alvo: 1 – Enfermeiros cooperantes; 2 – Enfermeiros recém formados, que participaram neste projecto enquanto estudantes e 3 – Documentos produzidos pelos estudantes, no âmbito das Observações Participativas. A análise compreensiva permitiu-nos perceber a relação entre os temas contidos no questionário (aplicado às populações 1 e 2) e as subcategorias inerentes à grelha de análise qualitativa (aplicada à população 3). As variáveis do questionário foram tratadas pelo SPSS com recurso à análise univariada e os dados produzidos pelos documentos pela análise de conteúdo, cuja triangulação permitiu a discussão a partir do Esquema de Análise, com produção das conclusões principais:
• A partir do processo de cuidados produzido pelos enfermeiros, os estudantes apreendem a importância da estrutura da disciplina, mobilizando os conceitos e o método, pelo estudo dos instrumentos básicos para uma adequada intervenção no cuidar.
• Fazem-no pela identificação da ocorrência, pela presença ou pela ausência dos instrumentos básicos enquanto dimensão da referida estrutura da disciplina, tornando-se essencial a utilização de uma metodologia científica, pela qual seja visível a conceptualização dos domínios do conhecimento ao nível das práticas.
• Parece ser reconhecida a importância de valor positivo à tomada de decisão ética pelos enfermeiros, ficando por clarificar se à pessoa é reconhecido um estatuto de participante activo.
• São de considerar alguns efeitos preversos da metodologia científica que parecem estar presentes, tanto na organização como na execução do cuidado, na medida em que o processo de enfermagem é transformado em mais um conjunto de tarefas, sintético e padronizado, através de pla- nos de cuidado tipo que standardizam o raciocínio mais do que a acção de enfermagem.
• O registo do cuidado de enfermagem, enquanto dimensão do processo de cuidados, parece assumir um estatuto de mediação da relação entre os profissionais, tanto na orientação para a pessoa como na orientação para a tarefa, mas em que é enfatizada a perspectiva medicocêntrica em detrimento da centralidade da pessoa como sujeito de cuidados.