Hoje tive o primeiro encontro com os meus alunos do 3º ano com quem participei numa visita ao serviço de psiquiatria, onde eles estagiarão no 2º semestre. São cerca de 30 jovens que me parecem de mente aberta capazes de colocar algumas questões interessantes e ouvir explicações que o podem não ser tanto.
Entrei neste serviço de saúde com cerca de 14 anos de intervalo desde a última vez que lá estive com alunos em estágio. Tive sensações, vivi emoções, observei, interagi (pouco), pensei. A minha memória foi convocada num vaivém de tempo e espaço, entre o antes e o depois, a reconfiguração dos lugares, as paredes vazias, as portas fechadas, os sons, os cheiros... As pessoas habitam estes espaços como se dali nunca tivessem saído. As pessoas todas. Parecem ter nascido ali, paridas por aquelas paredes, umas dos quartos, outras dos gabinetes e, tavez por isso se diferenciem e tenham funções diferentes. Na realidade, não estou a falar deste ou de outro serviço de psiquiatria, estou a falar de um filme, de uma peça de teatro, dum panfleto subversivo que é esta sensação de um tempo outro do lado de lá do espelho.
Vim com uma necessidade imensa de falar disto com os alunos, mas também com as pessoas que vivem e trabalham ali. Como faria bem a todos poder falar livremente sem constrangimentos, sem acusações, sem julgamentos. Falar apenas do que sentimos, do que nos parece ser aquilo que vemos como uma realidade apenas tangível por essa via. Trago tantas interrogações e não sei se consigo ter a coragem para soltar as palavras. Aquelas primeiras, talvez as mais verdadeiras e precisas, antes da contaminação da racionalidade normativa que nos faz pensar que não podemos dizer tudo de qualquer maneira. Por isso há como que um cânone, uma regra implícita que mais não faz do que afastar-nos do essencial, para que o mundo, e afinal eu próprio, continue a viver em paz.
segunda-feira, 15 de novembro de 2010
sexta-feira, 15 de outubro de 2010
Menos de um mês...
Passou menos de um mês neste retomar da prática docente interrompida há muito tempo. Tempo demais. Mas, como já tenho dito algumas vezes, há coisas que são como o andar de bicicleta... Assim, a pouco e pouco se vai construindo a relação a dois níveis, com os alunos e com os colegas.
DOS ALUNOS
A relação com os alunos volta a dar-me esse prazer e emoção que reconheço de antigamente, sobretudo nas interacções mais próximas e com pequenos grupos como são as discussões/orientções de trabalhos de grupo. É ali, frente a frente, debruçados sobre um problema - e os problemas nunca são simples, mesmo os simplesmente académicos - que nos surpreendemos, todos, com algo de descoberta no olhar que temos sobre determinada realidade. São esses momentos, acho que nos injectam qualquer coisa no corpo e na alma, seja lá isso o que for, que nos impele a procurar fazer sempre o melhor.
Neste contacto com os estudantes isto tem sido mais sentido com os do segundo ano, talvez por várias razões. Com estes tenho aulas dois dias seguidos na semana enquanto com os do primeiro ano esse contacto é de uma aula semanal. Por outro lado, com o segundo ano, lecciono uma unidade curricular que estrutural, sou titular e único docente ao contrário do que acontece com o primeiro ano em que me sinto um pouco perdido com alguns temas no meio de uma unidade curricular emque intervêm cinco ou sei docentes e da qual não consigo ter uma visão do todo. São dois desafios completamente diferentes. O primeiro ano está no início da sua socialização no quadro do ensino superior e da área da saúde e as primeiras experiências podem ser determinantes - lembro-me de um conjunto de histórias de Francesco Alberoni que se chama Primeiro amor, onde se descrevem e analisam várias primeiras experiências como portas, primeiras portas que se abrem para um determinado mundo - para a construção de um olhar sobre a vida, a saúde e a futura profissão. Os estudantes do segundo ano como já fizeram algumas aquisições, já me confrontam de outra maneira e serão, por isso, mais estimulantes intelectualmente.
DOS/AS COLEGAS
Em relação aos colegas sinto que do ponto de vista da relação social e, até, da amizade nalguns casos, tudo corre bem, mas muito limitado ao círculo que mais ou menos já conhecia. Parece que há pouco espaço, poucos momentos, de contacto com os colegas de outras áreas dos cursos da Escola. Mas, se o sinto assim em relação ao social, no que toca ao campo profissional, intelectual, académico, é praticamente nula a oportunidade de encontro, discussão, reflexão sobre as actividades da Escola, temas da actualidade relacionados com as áreas que trabalhamos. O que ainda vai existindo acaba por ser um pouco mais formal, do tipo conferência, palestra, seminário, que tendo o seu lugar e importância, não substitui outros tipos de reflexão e reflexão comum de carácter mais informal.
Às vezes apetece-me fazer propostas no sentido de criar esse espaço, mas ainda não encontrei a forma.
DA ESCOLA
O clima da Escola é insípido.
Num local onde é suposto fermentar conhecimento, parece que tudo se passa a frio. Deve corresponder, como metáfora, a qualquer avanço tecnológico que não domino - as reacções a frio - mas há qualquer coisa ausente no que esperava ser esta atmosfera.
Há dias, em conversa com uma colega, indaguei sobre o projecto da Escola, a sua visão... Tendo como resposta um grande abrir de olhos e um rasgado sorriso irónico, concluí: pois... a visão da Escola é para a Ria.
Mas não é para rir. Uma Escola que acolhe mais de duas centenas de estudantes e umas dezenas de profissionais; que pretende formar profissionais para uma área tão importante como a saúde; que tem inevitavelmente que se articular com inúmeras entidades da comunidade, tem que saber dizer-se. Tem que saber desenhar-se numa qualquer parede, ou projectar-se numa tela algures num futuro.
DOS ALUNOS
A relação com os alunos volta a dar-me esse prazer e emoção que reconheço de antigamente, sobretudo nas interacções mais próximas e com pequenos grupos como são as discussões/orientções de trabalhos de grupo. É ali, frente a frente, debruçados sobre um problema - e os problemas nunca são simples, mesmo os simplesmente académicos - que nos surpreendemos, todos, com algo de descoberta no olhar que temos sobre determinada realidade. São esses momentos, acho que nos injectam qualquer coisa no corpo e na alma, seja lá isso o que for, que nos impele a procurar fazer sempre o melhor.
Neste contacto com os estudantes isto tem sido mais sentido com os do segundo ano, talvez por várias razões. Com estes tenho aulas dois dias seguidos na semana enquanto com os do primeiro ano esse contacto é de uma aula semanal. Por outro lado, com o segundo ano, lecciono uma unidade curricular que estrutural, sou titular e único docente ao contrário do que acontece com o primeiro ano em que me sinto um pouco perdido com alguns temas no meio de uma unidade curricular emque intervêm cinco ou sei docentes e da qual não consigo ter uma visão do todo. São dois desafios completamente diferentes. O primeiro ano está no início da sua socialização no quadro do ensino superior e da área da saúde e as primeiras experiências podem ser determinantes - lembro-me de um conjunto de histórias de Francesco Alberoni que se chama Primeiro amor, onde se descrevem e analisam várias primeiras experiências como portas, primeiras portas que se abrem para um determinado mundo - para a construção de um olhar sobre a vida, a saúde e a futura profissão. Os estudantes do segundo ano como já fizeram algumas aquisições, já me confrontam de outra maneira e serão, por isso, mais estimulantes intelectualmente.
DOS/AS COLEGAS
Em relação aos colegas sinto que do ponto de vista da relação social e, até, da amizade nalguns casos, tudo corre bem, mas muito limitado ao círculo que mais ou menos já conhecia. Parece que há pouco espaço, poucos momentos, de contacto com os colegas de outras áreas dos cursos da Escola. Mas, se o sinto assim em relação ao social, no que toca ao campo profissional, intelectual, académico, é praticamente nula a oportunidade de encontro, discussão, reflexão sobre as actividades da Escola, temas da actualidade relacionados com as áreas que trabalhamos. O que ainda vai existindo acaba por ser um pouco mais formal, do tipo conferência, palestra, seminário, que tendo o seu lugar e importância, não substitui outros tipos de reflexão e reflexão comum de carácter mais informal.
Às vezes apetece-me fazer propostas no sentido de criar esse espaço, mas ainda não encontrei a forma.
DA ESCOLA
O clima da Escola é insípido.
Num local onde é suposto fermentar conhecimento, parece que tudo se passa a frio. Deve corresponder, como metáfora, a qualquer avanço tecnológico que não domino - as reacções a frio - mas há qualquer coisa ausente no que esperava ser esta atmosfera.
Há dias, em conversa com uma colega, indaguei sobre o projecto da Escola, a sua visão... Tendo como resposta um grande abrir de olhos e um rasgado sorriso irónico, concluí: pois... a visão da Escola é para a Ria.
Mas não é para rir. Uma Escola que acolhe mais de duas centenas de estudantes e umas dezenas de profissionais; que pretende formar profissionais para uma área tão importante como a saúde; que tem inevitavelmente que se articular com inúmeras entidades da comunidade, tem que saber dizer-se. Tem que saber desenhar-se numa qualquer parede, ou projectar-se numa tela algures num futuro.
terça-feira, 21 de setembro de 2010
Abertura
Bem vindos a este blogue que se quer construir construindo reflexões sobre as problemáticas da saúde e do desenvolvimento humano.
O regresso à docência e este período de adaptação à escola tem proporcionado uma extraordinária oportunidade de reflexão, um incessante ir e vir às experiências de vida passadas, às inquietações do presente frente às incertezas inexoráveis dum futuro que terá que ser construído a cada momento das nossas vidas, do nosso pensar, do nosso agir e da nossa capacidade de transformar, transformando-nos.
Aqui poderão cruzar-se ideias, interrogações, experiências que se querem ver sujeitas a análise crítica, de preferência heterodoxa.
Mesmo quando se trate de temas formalmente disciplinares isso não deve constituir barreira à sua abertura ao mundo de outras perspectivas. Sem que se negue a sistematização do conhecimento e das abordagens das disciplinas há que reconhecer que os saberes do mundo, da natureza, da humanidade só podem ser transdisciplinares se almejam uma verdadeira compreensão dos fenómenos. No caso da saúde isso parece pôr-se com bastante acutilância. Os diferentes saberes necessitam de se harmonizar, de se entretecerem em vez de se constituirem como barreiras e torreões de poder. O caminho para isso parece ser o do pensamento crítico, da análise reflexiva sem preconceito de qualquer ordem.
Fica aqui criado um espaço e um convite aos colegas e aos estudantes para que nos interroguemos todos, com alguma convicção de que quanto melhores forem as perguntas maior a possibilidade de encontrar respostas satisfatórias. ainda assim, provisórias e sujeitas a novas indagações.
Assim, como Sísifo, desafiemos os deuses.
O regresso à docência e este período de adaptação à escola tem proporcionado uma extraordinária oportunidade de reflexão, um incessante ir e vir às experiências de vida passadas, às inquietações do presente frente às incertezas inexoráveis dum futuro que terá que ser construído a cada momento das nossas vidas, do nosso pensar, do nosso agir e da nossa capacidade de transformar, transformando-nos.
Aqui poderão cruzar-se ideias, interrogações, experiências que se querem ver sujeitas a análise crítica, de preferência heterodoxa.
Mesmo quando se trate de temas formalmente disciplinares isso não deve constituir barreira à sua abertura ao mundo de outras perspectivas. Sem que se negue a sistematização do conhecimento e das abordagens das disciplinas há que reconhecer que os saberes do mundo, da natureza, da humanidade só podem ser transdisciplinares se almejam uma verdadeira compreensão dos fenómenos. No caso da saúde isso parece pôr-se com bastante acutilância. Os diferentes saberes necessitam de se harmonizar, de se entretecerem em vez de se constituirem como barreiras e torreões de poder. O caminho para isso parece ser o do pensamento crítico, da análise reflexiva sem preconceito de qualquer ordem.
Fica aqui criado um espaço e um convite aos colegas e aos estudantes para que nos interroguemos todos, com alguma convicção de que quanto melhores forem as perguntas maior a possibilidade de encontrar respostas satisfatórias. ainda assim, provisórias e sujeitas a novas indagações.
Assim, como Sísifo, desafiemos os deuses.
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