(anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me
uma pérola no coração. Mas estou só, muito só,
não tenho a quem a deixar.)
uma pérola no coração. Mas estou só, muito só,
não tenho a quem a deixar.)
- Al Berto - Salsugem
Hoje quero apenas deixar um registo de um grande acontecimento.
A organização deste evento - os estudantes do 3º ano do CLE mais a
Comissão Científica - proporcionou-me uma experiência extraordinária, aquilo a
que se chama uma peak experience, ou seja, um momento de crescimento.
Por isso, sinto-me grato. Não sei bem a quem, porque isto não é simples de
contar. É a minha experiência toda, hoje recapitulada com tanta gente
importante a visitar-me e a dizer-me coisas de tantos anos.
Entrei de manhã no auditório e começo a reconhecer caras (e os nomes a fugirem-me da memória porque algumas não via há muito) de antigos alunos e começaram os abraços com números de vinte e tal e trinta e tal anos, quase sussurrados, não fosse alguém dos mais novos perceber que já cá andamos há tantos anos… Mas quando se reúnem na mesma sala estudantes actuais com a mãe e sogro que foram antigos alunos estamos inevitavelmente descobertos e ficamos todos libertos…
Mas não sei se é bem disto que quero escrever. Aliás, não sei nada sobre o que quero escrever e talvez me deixe ir nesta desordem dos sentidos e do pensamento, como a água que corre por onde calha.
Sou habitualmente muito ligado à história e sou-o de uma forma que pretende compreender o olhar de quem vive determinados acontecimentos. Afinal o que é que podemos saber da história do mundo? Apenas o que alguém nos conta. Ou que alguém deixou registado, ou o que julgamos que dizem os objectos… Hoje falava-se de Cuidados de Saúde Primários e passou-se em revista a sua história e (hélas!) falou-se de narrativas e eu a fazer viagens no tempo e a reencontrar pessoas que estas pessoas de agora nunca terão encontrado. É melhor explicar isto.
Entrei para o Curso de Enfermagem em Janeiro de 1977 e saí em Março de 1980. Durante este curso, aconteceu Alma-Ata e foi criado o SNS português. Na altura nem se notou assim muito, mas já se fazia estágios em Centros de Saúde que tinham várias "valências" e diversas extensões à comunidade, em particular nos meios rurais. A Saúde estava numa Secretaria de Estado no Ministério dos Assuntos Sociais e as pessoas iam aos Serviços Médico-Sociais dizendo que iam ao "médico da Caixa", porque se habituaram a chamar assim desde tempos antigos da "Caixa de Previdência".
Hoje falou-se várias vezes de "paradigma" e de "mudança de paradigma" e levei quase todo o dia a pensar que, na verdade a verdadeira mudança de paradigma em termos de cuidados de saúde da população tinha acontecido depois de 1971, quando as pessoas sem posses começaram a poder aceder aos Centros de Saúde em vez de terem disporem apenas da assistência caridosa, mais ou menos por via da acção das Misericórdias espalhadas pelo país. Mesmo assim, a história não é assim tão simples de contar, porque coexistiam diferentes modalidades, incluindo uma acção profiláctica do Estado no domínio do que era na época o conceito de Saúde Pública.
Quero voltar ao final dos anos 70 e ao Curso de Enfermagem, o primeiro de um novo plano de estudos, o de 1976, que terá sido porventura o mais revolucionário da história do Ensino de Enfermagem em Portugal. Dois meses após o início do curso, num primeiro ano todo ele dedicado ao estudo de "O Homem - A Sociedade - A Saúde", íamos em pequenos grupos, quase viver para uma comunidade urbana ou rural durante quatro semanas, já com conhecimentos básicos enfermagem (Enfermagem I - Enfermagem na Comunidade), Psicologia, Sociologia, Nutrição... Mais de quarenta anos depois, ainda acho isto bastante avançado. É verdade que ainda não aprofundávamos muito os aspectos conceptuais da enfermagem que não iam muito além do modelo de Henderson, estrondosamente parasitado e ofuscado um modelo de Processo de Enfermagem da brasileira Wanda Aguiar Horta que tinha toda a vantagem de se exprimir em português e era doutora em enfermagem. Já estou a ir por outros caminhos e um dia hei-de escrever sobre isto. O que me importa hoje é mesmo a Enfermagem e a Comunidade (o Curso de Pós-Licenciatura e Especialização em Enfermagem Comunitária também se encerrava hoje) e o turbilhão de emoções que ainda não consigo sossegar. É que, apesar de me ter iniciado profissionalmente na enfermagem hospitalar, a ideia da comunidade, a visão da autonomia da profissão sempre se realizou na enfermagem na comunidade. Toda a minha vida discuti isso com tanta gente e hoje tive testemunhos de projectos na comunidade que estão na linha do que sempre sonhei.
Este encontro "+Enfermagem", na forma como foi organizado, como decorreu e pela qualidade científica e pragmática enche-me a alma, ou o coração ou seja lá onde for que se aloja esse sentimento misto de orgulho e gratidão. Senti isso também em algumas colegas e em muitos estudantes. Vários o verbalizaram e as lágrimas que por ali correram foram eloquentes. Senti, acho que pela primeira vez em muitos anos, uma partilha e uma coesão que, nos meus sonhos surge como uma espécie de exigência mínima para que alguma coisa possa ter o nome de "Escola". Ontem andei com uma t-shirt trazida do FOLIO de Óbidos com a seguinte inscrição:
Há entre os utopianos uma quantidade de coisas que eu aspiro a ver estabelecidas nas nossas cidades… Aspiro mais do que espero.
Entrei de manhã no auditório e começo a reconhecer caras (e os nomes a fugirem-me da memória porque algumas não via há muito) de antigos alunos e começaram os abraços com números de vinte e tal e trinta e tal anos, quase sussurrados, não fosse alguém dos mais novos perceber que já cá andamos há tantos anos… Mas quando se reúnem na mesma sala estudantes actuais com a mãe e sogro que foram antigos alunos estamos inevitavelmente descobertos e ficamos todos libertos…
Mas não sei se é bem disto que quero escrever. Aliás, não sei nada sobre o que quero escrever e talvez me deixe ir nesta desordem dos sentidos e do pensamento, como a água que corre por onde calha.
Sou habitualmente muito ligado à história e sou-o de uma forma que pretende compreender o olhar de quem vive determinados acontecimentos. Afinal o que é que podemos saber da história do mundo? Apenas o que alguém nos conta. Ou que alguém deixou registado, ou o que julgamos que dizem os objectos… Hoje falava-se de Cuidados de Saúde Primários e passou-se em revista a sua história e (hélas!) falou-se de narrativas e eu a fazer viagens no tempo e a reencontrar pessoas que estas pessoas de agora nunca terão encontrado. É melhor explicar isto.
Entrei para o Curso de Enfermagem em Janeiro de 1977 e saí em Março de 1980. Durante este curso, aconteceu Alma-Ata e foi criado o SNS português. Na altura nem se notou assim muito, mas já se fazia estágios em Centros de Saúde que tinham várias "valências" e diversas extensões à comunidade, em particular nos meios rurais. A Saúde estava numa Secretaria de Estado no Ministério dos Assuntos Sociais e as pessoas iam aos Serviços Médico-Sociais dizendo que iam ao "médico da Caixa", porque se habituaram a chamar assim desde tempos antigos da "Caixa de Previdência".
Hoje falou-se várias vezes de "paradigma" e de "mudança de paradigma" e levei quase todo o dia a pensar que, na verdade a verdadeira mudança de paradigma em termos de cuidados de saúde da população tinha acontecido depois de 1971, quando as pessoas sem posses começaram a poder aceder aos Centros de Saúde em vez de terem disporem apenas da assistência caridosa, mais ou menos por via da acção das Misericórdias espalhadas pelo país. Mesmo assim, a história não é assim tão simples de contar, porque coexistiam diferentes modalidades, incluindo uma acção profiláctica do Estado no domínio do que era na época o conceito de Saúde Pública.
Quero voltar ao final dos anos 70 e ao Curso de Enfermagem, o primeiro de um novo plano de estudos, o de 1976, que terá sido porventura o mais revolucionário da história do Ensino de Enfermagem em Portugal. Dois meses após o início do curso, num primeiro ano todo ele dedicado ao estudo de "O Homem - A Sociedade - A Saúde", íamos em pequenos grupos, quase viver para uma comunidade urbana ou rural durante quatro semanas, já com conhecimentos básicos enfermagem (Enfermagem I - Enfermagem na Comunidade), Psicologia, Sociologia, Nutrição... Mais de quarenta anos depois, ainda acho isto bastante avançado. É verdade que ainda não aprofundávamos muito os aspectos conceptuais da enfermagem que não iam muito além do modelo de Henderson, estrondosamente parasitado e ofuscado um modelo de Processo de Enfermagem da brasileira Wanda Aguiar Horta que tinha toda a vantagem de se exprimir em português e era doutora em enfermagem. Já estou a ir por outros caminhos e um dia hei-de escrever sobre isto. O que me importa hoje é mesmo a Enfermagem e a Comunidade (o Curso de Pós-Licenciatura e Especialização em Enfermagem Comunitária também se encerrava hoje) e o turbilhão de emoções que ainda não consigo sossegar. É que, apesar de me ter iniciado profissionalmente na enfermagem hospitalar, a ideia da comunidade, a visão da autonomia da profissão sempre se realizou na enfermagem na comunidade. Toda a minha vida discuti isso com tanta gente e hoje tive testemunhos de projectos na comunidade que estão na linha do que sempre sonhei.
Este encontro "+Enfermagem", na forma como foi organizado, como decorreu e pela qualidade científica e pragmática enche-me a alma, ou o coração ou seja lá onde for que se aloja esse sentimento misto de orgulho e gratidão. Senti isso também em algumas colegas e em muitos estudantes. Vários o verbalizaram e as lágrimas que por ali correram foram eloquentes. Senti, acho que pela primeira vez em muitos anos, uma partilha e uma coesão que, nos meus sonhos surge como uma espécie de exigência mínima para que alguma coisa possa ter o nome de "Escola". Ontem andei com uma t-shirt trazida do FOLIO de Óbidos com a seguinte inscrição:
Há entre os utopianos uma quantidade de coisas que eu aspiro a ver estabelecidas nas nossas cidades… Aspiro mais do que espero.
(Thomas
Morus, no final de Utopia).
Talvez signifique alguma coisa.
