Está ainda a decorrer uma unidade curricular no Curso de Licenciatura em Enfermagem constituída exclusivamente por horas de orientação tutorial (OT). São 32 horas de contacto em sala de aula ou em outro espaço a que se somam mais cerca de 30 horas de orientação individual ou de pequenos grupos. Esta unidade curricular situa-se no 3º ano/1º semestre do Curso, tem a designação de “Comunicação e Relação em Enfermagem III” (CRE III), sou eu o titular e único docente e, embora venha acompanhando este grupo de estudantes desde o primeiro ano (CRE I e CRE II) é a primeira vez que coordeno uma unidade com estas características.
Para além de tudo o que se possa dizer sobre a importância da relação e da comunicação nos cuidados de enfermagem, interessa também explicitar de alguma forma a visão que se tem da aprendizagem (às vezes apetece-me dizer, descoberta) enquanto processo de construção de competências tão genéricas como transversais que necessariamente incluirão a capacidade de mobilizar os saberes, as habilidades, as atitudes adequadas num determinado momento e situação específica. O desenvolvimento das capacidades de comunicação faz-se num continuum ao longo da vida e esse processo não é igual para todos. É a partir das capacidades de autoconhecimento, de observação, de escuta, de atenção e também de reflexão e tomada de consciência daquilo que se comunica que se pode promover o desenvolvimento adequado da comunicação e relação e a sua orientação para as necessidades da prática dos cuidados de enfermagem.
O desenho destas unidades curriculares ao longo dos três primeiros anos reflecte, de alguma forma, esta progressão que vai desde a compreensão mais genérica dos mecanismos presentes e que influenciam a comunicação até a um nível de aplicabilidade que começa a ser efectivo, espera-se, durantes as experiências de Ensino Clínico.
Este ano, ao planear a unidade curricular e depois de conferir com as colegas anteriormente responsáveis por ela, decidi não me afastar muito do que vinha sendo realizado, mantendo aproximadamente os mesmos conteúdos, aos quais juntei uma abordagem mais estruturada à utilização das TIC, a comunicação em rede em particular no que se designa por web 2.0.
Do ponto de vista metodológico e em conformidade com a determinação curricular de só contar com tempos de OT, propus aos estudantes o desenvolvimento de um projecto de intervenção no âmbito da comunicação e relação em enfermagem e enquadrado nos objectivos de aprendizagem desta unidade curricular. Os estudantes teriam toda a liberdade para construir uma problemática e definir uma população-alvo para a intervenção. Ao docente caberia o papel de orientar e ajudar cada grupo a estruturar o seu projecto, gerir as sessões de grupo em sala de aula para partilha das ideias, discussão colectiva e interajuda, bem como a identificação de dificuldades comuns e a abordagem teórica de alguns aspectos de interesse para todos.
Para além disso e procurando incluir alguma prática de uso das tecnologias de comunicação em rede foi proposto que cada grupo criasse uma página temática na internet (blog, e-portefolio, wiki, etc.) para ir reportando ao longo do semestre a evolução do trabalho, as dificuldades, as decisões e de modo que isso pudesse ser visto e comentado pelos colegas e pelo docente.
A par de todo este processo que incluiu sempre e com bastante frequência sessões de orientação presencial, foi desenvolvida uma tutoria à distância – uma espécie de e-tutoring ou de e-coaching – via correio electrónico que se revelou bastante produtivo.
As sucessivas versões do projecto (ou apenas ideias iniciais ou partes do projecto) foram chegando sem horas nem dias marcados e apenas em incidentais excepções a demora na resposta ultrapassou as 48 horas. Este método demonstrou para já ter um potencial muitas vezes ignorado pelos docentes e formadores e que talvez por isso seja pouco explorado e praticado.
A forma como tem decorrido permite já verificar alguns aspectos que merecem uma atenção futura e eventualmente um estudo mais aprofundado.
Há vários indícios de que este processo promove uma maior autonomia dos estudantes e em boa parte deles, uma subida do nível de exigência face ao docente. Por outro lado, o feedback atempado e oportuno do docente estimula a progressão, a clarificação das ideias, a desconstrução de uma série de lugares comuns habitualmente usados nos trabalhos académicos e encoraja o enfrentamento das próprias dificuldades.
O respeito pelos diferentes ritmos de trabalho e de envolvimento dos estudantes é uma questão fundamental que, enquanto tutor também me faz reflectir sobre as pontes que se estabelecem com os princípios da relação de ajuda que é, afinal, o nosso principal objecto e, simultaneamente, instrumento de trabalho.