segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Psiquiatriandando...

Hoje tive o primeiro encontro com os meus alunos do 3º ano com quem participei numa visita ao serviço de psiquiatria, onde eles estagiarão no 2º semestre. São cerca de 30 jovens que me parecem de mente aberta capazes de colocar algumas questões interessantes e ouvir explicações que o podem não ser tanto.
Entrei neste serviço de saúde com cerca de 14 anos de intervalo desde a última vez que lá estive com alunos em estágio. Tive sensações, vivi emoções, observei, interagi (pouco), pensei. A minha memória foi convocada num vaivém de tempo e espaço, entre o antes e o depois, a reconfiguração dos lugares, as paredes vazias, as portas fechadas, os sons, os cheiros... As pessoas habitam estes espaços como se dali nunca tivessem saído. As pessoas todas. Parecem ter nascido ali, paridas por aquelas paredes, umas dos quartos, outras dos gabinetes e, tavez por isso se diferenciem e tenham funções diferentes. Na realidade, não estou a falar deste ou de outro serviço de psiquiatria, estou a falar de um filme, de uma peça de teatro, dum panfleto subversivo que é esta sensação de um tempo outro do lado de lá do espelho.
Vim com uma necessidade imensa de falar disto com os alunos, mas também com as pessoas que vivem e trabalham ali. Como faria bem a todos poder falar livremente sem constrangimentos, sem acusações, sem julgamentos. Falar apenas do que sentimos, do que nos parece ser aquilo que vemos como uma realidade apenas tangível por essa via. Trago tantas interrogações e não sei se consigo ter a coragem para soltar as palavras. Aquelas primeiras, talvez as mais verdadeiras e precisas, antes da contaminação da racionalidade normativa que nos faz pensar que não podemos dizer tudo de qualquer maneira. Por isso há como que um cânone, uma regra implícita que mais não faz do que afastar-nos do essencial, para que o mundo, e afinal eu próprio, continue a viver em paz.

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