O que é um bem público e um direito conquistado pela civilização (há quem lhe chame com algum desprezo "adquirido") só pode ser mantido numa lógica mutualista em que contribuem mais os que mais podem para que todos possam beneficiar de acordo com as suas necessidades. Dito assim, até parece um refrão "comunista", mas a história sabe que o chamado "estado social" é uma criação dos sectores de inspiração mais ou menos social democrata, da qual quase toda a direita europeia de hoje se reclama ou já se reclamou.
Portugal está a ser sujeito a um ataque de um cartel de interesses que se foi instalando no Estado, prevertendo o seu papel de prestador de serviço público e neutralizando, igualmente, o seu poder regulador. O que se passa no ensino é, como noutros sectores, uma sujeição ao negócio privado que colonizou o serviço público, primeiro com uma hiper-oferta em quase cada canto do país, depois (ou se calhar sempre) com a exigência de financiamento frequentemente sem uma justa prestação de contas.
O futuro de alguns cursos do ensino superior público está a ser jogado numa espécie de roleta russa. É verdade que se multiplicaram cursos sem muito sentido e sem uma avaliação clara da sua necessidade, num movimento em muito empurrado pela proliferação do ensino privado e pelas lógicas de financiamento - era necessário diversificar a oferta, angariar mais alunos, gerar mais receitas próprias. Nada disto é mau por si só. Alguma concorrência entre o sector público e o privado pode ser estimulante, desde que o jogo não seja viciado à partida e o nível de exigência possa ser equilibrado, coisa que nem sempre tem acontecido.
Vem este intróito a propósito de uma convocatória recebida por e-mail da directora do curso de enfermagem, no dia 16 de Janeiro último com o seguinte teor:
Enviada: quarta-feira, 16 de Janeiro de 2013 13:20
Assunto: REUNiÃOO URGENTE!!!
Convocatória
Convoco todos os Professores para uma reunião URGENTE no dia 5 de
fevereiro às 14.30.
Ordem de trabalhos
!- O futuro do Curso de Enfermagem no Algarve.
Muito obrigada pela vosa comparência
A Diretora de Curso
Dois aspectos me intrigaram de imediato. Primeiro, a urgência triplamente exclamada no assunto e praticamente gritada no corpo da convocatória, quando afinal era para dali a três semanas, menos um dia.
Depois, a "ordem de trabalhos" com um ponto único: "O futuro do Curso de Enfermagem no Algarve". Talvez pelo vício entranhado de ser um curioso do estudo da comunicação não consigo travar esta tendência para me pôr logo a analisar o significado destas mensagens e as suas eventuais contradições e também não resisto ao deslise para um registo mais lúdico dessas interpretações. É um jogo que nem sempre é entendido pelas cabeças menos flexíveis e menos habituadas ao humor. Perigoso, eu sei.
Mas vamos ao que interessa que a coisa pode até ser séria.
Este enunciado de "ordem de trabalhos" pode ser lido de várias formas. A uma delas, a dramática (chamo-lhe eu assim) pude assistir ainda antes de ler a convocatória, vendo sair de um gabinete onde presumo que se tenha falado no assunto, pelo menos duas colegas com ar bastante preocupado e com lágrimas nos olhos. A outra (é mais a minha), a especulativa (sei que alguns poderão achar delirante, inconsciente, desconsiderante ou desrespeitosa - talvez seja apenas cínica, no sentido filosófico) a que leva a explorar outros caminhos. Desconstruindo o contexto, podemos até entrar numa autoestrada de ironia, sem portagens, sem custos para o utilizador apesar de sabermos que a pagamos por outra via. Ora, ir para uma reunião sem me preparar é coisa que habitualmente não me aconselho. Em regra estudo a documentação disponível, a informação prestada, a problemática em que se inscreve o assunto... Desta vez só sei que vamos discutir (?) o "futuro", coisa que muita gente diz que "a deus pertence", mas isso não é coisa que não adianta nada ateu e, seguramente, a um crente também não. Mas peguemos assim o futuro nesta cernelha e interroguemo-nos. Qual pode ser o meu contributo para esta discussão? Pensei e voltei a pensar e embora me custe admitir, não sei. A pergunta até poderia estar mal feita, mas concedam-me este crédito. Tenho uma longa experiência de reuniões, assembleias, meetings, conclaves, seminários, simpósios, conferências, colóquios, paletras, charlas, tertúlias e muitos jantares e sei da justeza da pergunta. Até tenho uma espécie de corolário: "se não sabes o que lá vais fazer, por que vais?". Mas desta vez a coisa está feia. Embora não acredite sequer que "las hay, las hay..." vejo na condição de ter que me sujeitar aos terenos exotéricos e não me resta outra alternativa que não tomá-los como válidos. Assim, compulsados os factos resultantes da observação dos astros, da leitura das cartas da maya, dos búzios da mãe de santo, das miudezas de um frango de aviário e principalmente da leitura das auras do curso, estou mais ou menos em condições de afirmar que o futuro do curso de enfermagem é radioso (aura de luz branca com ondas douradas), portanto, nada a temer. E como li algures qualquer coisa relacionada com profecias que se autocumprem, só temos mesmo é que profetizar.
É claro que teria preferido uma abordagem mais científica, ou, pelo menos mais racional, mas para isso precisava de ter alguma informação.
A ignorância torna-nos crentes. Valha-nos então santa bárbara que eu nem sei quem é e que sempre ouvi dizer que é de quem só nos lembramos quando faz trovões.
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