Passei dois dias dentro de um hospital porque a C. foi
operada. Entrou no próprio dia de manhã bem cedo e, como ainda não tinha um
quarto vago no internamento fez a sua preparação no ambulatório e daí seguiu
para o bloco operatório onde entrou pouco passava das 10 horas.
Nessa altura saí para o exterior. Fui comer e deixei-me
ficar na pastelaria a ler até cerca do meio-dia. Voltei ao hospital e dirigi-me
ao bloco. Há um serviço de informações onde podemos ir sabendo do trajecto da
pessoa. A informação dada por uma administrativa foi de que tinha acabado de
sair da sala de operações e estava agora no “recobro”. Não consegui saber mais
nada, mas ainda era cedo e presumi que estava tudo dentro da normalidade. Mais
pessoas tentavam saber dos familiares e vi entrar um enfermeiro com uma
auxiliar e saírem pouco depois trazendo na cama com um doente recém-operado.
Fiquei por ali, no corredor aproveitando o tempo de espera
em leitura, mas também observando o movimento relativamente calmo do hospital.
Percebo que estamos na hora de almoço e a frequência com que passam pessoas
fardadas diminui significativamente. Reconheço um empregado da pastelaria onde
também servem refeições que veio trazer algumas refeições. Vem até munido de um
terminal para pagamento com multibanco.
Volto às informações e sou novamente recebido com simpatia
pela mesma funcionária que me diz que a dona C. deve sair por volta das 13:30;
que vai para o piso dois, cama 217 e que posso aguardar lá. São 13:15. Fico por
ali mais um pouco, tentando perceber por que porta sairá a C. para a poder
acompanhar logo. No corredor há mais gente igualmente ansiosa. Volto à zona de
informações que é já dentro do bloco e no corredor por onde vejo sair os
doentes do recobro. Vejo o enfermeiro que levou a C. para o bloco; reconhece-me
e sorri. Pergunto se a vai buscar, mas não. Ele é do ambulatório e vai buscar
outra pessoa. Na volta diz-me que ela já acordou e está bem. A funcionária que
me deu informações diz-me que não posso permanecer ali. Mas eu quero ver a C.
logo à saída. Explica-me que sobe pelo elevador interno e sai no segundo piso.
Vou para o segundo piso e dirijo-me ao posto de enfermagem, digo que sou
familiar de C. que está prestes a vir do bloco para a cama 217. A enfermeira
diz-me que se quiser posso aguardar no quarto. Pergunto por que ainda não veio
e a resposta é quase seca: “ainda não tivemos oportunidade”. É a hora de
almoço, pensei. Fui ao quarto, mas saí pouco depois e vim para o corredor. Vejo
sair uma enfermeira com uma auxiliar e pergunto se a vão buscar. Confirmam que
sim e eu sigo mais devagar atrás delas. A porta por onde sairá a C. fica no
fundo do corredor. Não demoraram muito. Pouco passa das 14:30 e a porta
abre-se. A C. vem na cama com uma bolsa de soro pendurado, vê-me e acena com a
mão e um sorriso. Está acordadíssima e parece-me bem.
A partir daí estive quase todo o tempo no quarto até cerca
das 23 horas e no dia seguinte, das 11 às 14 horas, momento em que a C. saiu
com alta.
Posso considerar esta experiência como uma visita de
observação do funcionamento actual de um hospital que é privado, situado na
cidade de Lisboa. Tudo aconteceu nos dias 23 e 24 de Outubro de 2013.
Acrescente-se que já tinha tido, eu próprio, uma experiência de internamento, para
um intervenção de neurocirurgia para correcção de uma hérnia discal e a
observação dessa altura (2010) não difere muito desta.
As instalações e a
actividade geral
A primeira impressão é de que entramos num hotel. A
decoração, o design dos percursos, o atendimento, tudo parece concebido para
eliminar o “cheiro” clínico. O bacão de atendimento procede ao “check in” e ao “check
out” com a natural neutralidade de qualquer estabelecimento hoteleiro, tirando
talvez a máquina de dispensa de senhas numeradas (aí faz mais lembrar um banco,
ou uma repartição de finanças). A funcionária trata-nos com profissional
simpatia e cobra adiantado de acordo com o orçamento.
Percebe-se que se está numa organização pensada ao milímetro
e nota-se o sentido de eficiência também no “staff” que cumpre uma espécie de
encenação eventualmente sujeita a alguns deslizes. Há um fenómeno bastante
ubíquo que é o dos profissionais “em sua casa” como que “apagarem” a existência
dos outros, os paradoxalmente estranhos –os clientes – quando, noutro registo
são tidos como toda a razão do serviço que prestam. Desde a conversa sobre
assuntos privados e de circunstância até uma jocosa reprimenda (“funcionário
administrativo ou chega a horas, ou chega cedo”) tudo se pode ouvir enquanto se
espera, já no interior de um serviço.
O que fazem os
enfermeiros
Não tive oportunidade de perceber se a dotação de
enfermeiros por turno é a adequada por não ter uma dimensão concreta do
serviço, nem do nível de dependência dos doentes, contudo não me pareceram
assoberbados com trabalho ou apressados. Parece que tudo corre com alguma calma.
O posto de enfermagem não sendo propriamente um panóptico tem uma localização
aberta, quase central, do tipo balcão secretária. É aí que os enfermeiros fazem
os registos num terminal de computador e actualizam outro tipo de documentação.
Uma sala de trabalho de enfermagem e uma outra dependência menos visível completam
este espaço.
A equipa de enfermagem é extraordinariamente jovem; poucos
terão mais de trinta anos e a grande maioria são mulheres.
As enfermeiras com quem contactámos foram sempre correctas
no trato, mas sentia-as pouco empenhadas na relação com a pessoa, pouco
cuidadoras. A impressão que dão é de que cumprem escrupulosamente as
prescrições, mas não criam qualquer proximidade com os doentes (a imagem que
deixam na doente C. é “as enfermeiras são pessoas que nos dão coisas para tomar”)
e não se detêm para explicar o que fazem, limitando-se a informar genericamente
(vamos ver como estão os pensos), a fazer perguntas instrumentais (tem dores?)
e mesmo quando questionadas sobre a natureza de um medicamento apenas respondem
que “é a medicação prescrita”.
A presença
A equipa de enfermagem parece cumprir um guião fortemente
instrumental e administrativo que se sobrepõe ao aspecto relacional e
expressivo. A presença junto do doente ou familiares é diminuta e nunca
aconteceu fora de qualquer procedimento objectivo. Um outro aspecto
referenciado pelo testemunho da C. é que mesmo na escassa presença as enfermeiras
apresentam uma relação muito padronizada que não tem em conta a
individualidade.
Contrastante com esta atitude, o pessoal auxiliar estabelece
uma maior proximidade e “uma relação mais humana”, como refere C., procurando
saber como a pessoa se sente e de ajuda necessita.
Reflexão crítica
Não é minha intenção estabelecer qualquer juízo avaliativo
do papel da enfermagem, até porque a observação é bastante limitada, contudo
não posso deixar de confrontar esta experiência e observação, bem como o
testemunho da doente, com aquilo que é a matriz da profissão de enfermagem, a
orientação do ensino e todo o referencial para a prática dos cuidados de
enfermagem, nomeadamente o conjunto de competências preconizado pela Ordem dos
Enfermeiros que só por si resume de forma actualizada o “estado da arte”.
Bastará citar o primeiro dos considerandos para a elaboração
do regulamento de competências (OE, 2012) onde se assume que o exercício profissional da Enfermagem
centra-se na relação interpessoal entre um enfermeiro e uma pessoa, ou entre um
enfermeiro e um grupo de pessoas (família ou comunidades) para se perceber
que algo estará a faltar, pelo menos no que foi dado a observar. E, mais especificamente
a competência Estabelece uma comunicação
e relações interpessoais eficazes com o seu descritivo: O enfermeiro estabelece relações
terapêuticas com o cliente e/ou cuidadores, através da utilização de
comunicação apropriada e capacidades interpessoais (OE, 2012, p.18). Já no
que se refere à competência Utiliza o Processo de Enfermagem, um dos critérios de competência (48) Garante que o cliente e/ou os cuidadores
recebem e compreendem a informação na qual baseiam o consentimento dos cuidados
está directamente relacionado com situações observadas como por exemplo a
administração de terapêutica oral antes de ir para o bloco operatório sem
qualquer informação, ou noutro momento apenas “vamos dar aqui uma injecção na
barriga”.
O que importa aqui é provocar uma reflexão mais ampla sobre
estes indícios de que a enfermagem, tal como é descrita nos referenciais em uso
poderá estar a extinguir-se. Para quem está comprometido com o ensino de
enfermagem e a formação dos enfermeiros, esta não é de modo nenhum uma questão
menor. Pode ser o emergir de uma tendência de que já me vinha dando conta tanto
no contacto com os serviços onde acompanho estudantes em ensino clínico, como
em outras ocasiões em que por acompanhar familiares entrei em serviços de saúde
quase como “cliente mistério”. É necessário identificar se esta falta de
enfermagem está mais relacionada com aspectos da formação ou da socialização
profissional, se tem a ver com alguma directiva dos serviços ou é uma
estratégia de fuga dos jovens enfermeiros
para não se confrontarem com ainda alguma inexperiência.
Uma investigação sobre as práticas trará certamente alguma
luz sobre o assunto. Entretanto é prudente estarmos alerta face a estes sinais
de que em algumas situações os enfermeiros seriam até dispensáveis. Bastaria
que uns quaisquer técnicos de administração de terapêutica na dependência dos
médicos assegurasse o cumprimento das prescrições, a vigilância dos sinais
vitais e outra informação relativa ao tratamento da doença, o resto faria o
pessoal auxiliar, também designado de “acção médica”, eventualmente com mais humanidade
espontânea na relação com o doente e os familiares.
O perigo de esvaziamento da profissão pode estar a ser
induzido pelos próprios enfermeiros, com alguma inconsciência sobre as
potenciais consequências.
OE (2012). Regulamento do Perfil de Competências do Enfermeiro de Cuidados
Gerais. Acedido em http://www.ordemenfermeiros.pt/publicacoes/Documents/divulgar%20-%20regulamento%20do%20perfil_VF.pdf
a 27 de Outubro de 2013.
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