As
minhas reflexões sobre a saúde mental e um enorme conjunto de
circunstâncias associadas a esta noção começaram há muitos anos. Primeiro, com
o deslumbramento de quem está a descobrir o conhecimento novo e a crença de que
com isso ficamos equipados para melhor compreender os outros e o mundo. Ainda
hoje, continuo a acreditar que isso é verdade. Depois começa a nascer uma
dúvida aqui, outra ali; começamos a ler perspectivas diferentes sobre as mesmas
problemáticas e, sobretudo começamos a tomar consciência do que se passa com
pessoas, com a sua existência, apanhadas nas malhas da psiquiatria.
"Psiquiatria"
é uma palavra muito ambígua. Eu que gosto das palavras seria talvez capaz de
escrever um tratado, apenas sobre esta palavra. Ela designa tanto um
conhecimento médico como um sistema que tanto pode ser de
"tratamento", capaz de ajudar pessoas em dificuldade, como um sistema
repressivo e de encarceramento mais violento e mais cruel que o pior dos
sistemas judiciários. Sobre o bom e o mau da psiquiatria, sobre a genialidade
de alguns actores e a completa idiotice de outros ao longo da sua já longa
história (e refiro-me apenas ao período dito científico) já muito se escreveu,
muita polémica correu, sobretudo na segunda metade do século vinte. A
psiquiatria é também e sempre foi um poder. Um poder especial, não
completamente destituído de escrutínio, mas quase. A história da psiquiatria
está repleta de criminosa desumanidade impune. Mais facilmente se julga um acto
de sevícias numa prisão do que num hospital psiquiátrico. Ainda que actualmente
a situação esteja diferente, o estado de direito não se aplica muito na
psiquiatria que muitas vezes parece realmente um "estado de excepção"
legalmente autorizado.
Um conto
de García Márquez em Doze Contos Peregrinos (1994, Lisboa: Editores
Reunidos) conta a história de uma mulher apanhada pelas malhas deste sistema
psiquiátrico e o "tratamento" a que é sujeita para uma
"patologia" inexistente. O conto chama-se "Só vim fazer um
telefonema" e vale a pena ler.
A
psiquiatria usa um poder que lhe vem de um saber especializado, para agir sobre
a vida das pessoas. Decide que uma pessoa tem uma determinada patologia
confirmada por um conjunto de sinais e sintomas interpretados de acordo com um
quadro de referência partilhado pela comunidade científica. Estes quadros de
referência, para além do saber clínico de base, da semiologia e da hermenêutica
médica estão em grande parte traduzidos nos sistemas de classificação das
perturbações mentais, dos quais o mais conhecido é o DSM (acrónimo
de Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders) que já vai na sua quinta edição. Este "catálogo de doenças",
tomado quase como uma bíblia para muitos psiquiatras é, por outro lado uma
espécie de "código penal" se o olharmos do ponto de vista das suas
consequências na vida do cidadão comum que procura ajuda num sistema que se
oferece com essa missão.
Ora, Allen Frances, professor emérito, ex-director do departamento de psiquiatria da Duke University nos EUA e que foi presidente do grupo de trabalho da DSM-IV vem agora dizer, numa entrevista publicada no El País (na sua edição brasileira) que afinal cometeram um grande erro ao transformarem os problemas comuns das pessoas em perturbações mentais, doenças que devem ser tratadas, portanto. E não esconde a mais do que óbvia influência da indústria farmacêutica nisto tudo. É pois necessário convencer as pessoas que estão doentes e que precisam de tomar medicamentos!Chegamos assim ao negócio legal da droga. E andamos preocupados com uns putos que fumam uns charros.
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