A enfermagem deve ser das profissões da saúde que mais advoga o trabalho em equipa e assume fazer parte de uma equipa multidisciplinar ou pluridisciplinar. É quase um cliché e uma retórica mantida ao longo de décadas, mas qual é o seu verdadeiro significado? Por que é que este tema é tão caro aos enfermeiros e às enfermeiras e igualmente aos responsáveis pela sua formação, os docentes dos cursos de enfermagem? Vejamos alguns exemplos:
"Atualmente, o enfermeiro é visto como um profissional altamente qualificado, e autónomo, competente e integrante duma equipe multidisciplinar, sendo o elo de ligação, entre o cliente/população e a restante equipa de saúde […e ] será aquele capaz de se inserir como promotor de saúde, dos projetos individuais de cada utente e, ao mesmo tempo, promover a adaptação das diferentes respostas humanas aos processos patológicos que possam existir, integrado numa equipe multiprofissional, possuindo a habilidade e destreza manual e mental para utilizar os mais sofisticados equipamentos advindos da moderna tecnologia de suporte avançado de vida […] o enfermeiro atua interagindo com os demais elementos inseridos no sistema de cuidados em saúde"(Lemos, s.d.).
No mesmo texto, Lígia Lemos refere-se três vezes à ideia do trabalho numa equipa multidisciplinar ou multiprofissional – o que não será bem a mesma coisa – deixando ver que se trata de algo importante na caracterização do trabalho dos enfermeiros, mas sem nunca se deter em alguma análise ou descrição sobre a natureza dessa relação. Tudo parece um adquirido, suficientemente entendido no espaço disciplinar e da enfermagem, mas sê-lo-á para os outros profissionais? Marília Neves, num artigo de revisão sobre o papel do enfermeiro na equipa multidisciplinar parece chegar à conclusão que
"O papel profissional do enfermeiro na equipa multidisciplinar dos Cuidados de Saúde Primários surge pouco explícito, com tendência a uma perceção estereotipada pelos outros profissionais, mas começando a emergir algumas expectativas por parte dos utentes que o percebem como facilitador no acesso aos cuidados, valorizando as suas competências relacionais e culturais" (Neves, 2012).
É interessante esta dualidade observada entre a visão “estereotipada” dos outros profissionais e a percepção daqueles que são os beneficiários dos cuidados de saúde. Há algo de paradoxal nesta formulação (e em muitas outras que poderíamos tomar como exemplo) em que um desejo de afirmação profissional através da pertença a uma equipa acaba por ser ver negado na prática, a favor de uma relação de entendimento onde ela é efectivamente primordial. Seria talvez leviano colocar em causa a existência de uma equipa de cuidados, até porque as problemáticas humanas têm uma extensão e uma magnitude que ultrapassa a capacidade e o conhecimento de uma só disciplina ou de uma só profissão, mas não parece de todo descabido o aprofundamento de uma reflexão sobre o assunto.
O conhecimento e as técnicas de intervenção foram-se especializando e dividindo tanto em ordem ao seu objecto cada vez mais específico quanto em ordem aos instrumentos e métodos utilizados (Delattre, 1992) produzindo disciplinas e desenvolvendo linguagens que podem chegar a ser quase incompreensíveis mesmo dentro do mesmo campo de intervenção. Esta é uma problemática também interessante a ser analisada na óptica da comunicação interdisciplinar e vamos deixá-la por agora em benefício de uma compreensão mais ampla do significado da retórica sobre a equipa multidisciplinar ou pluridisciplinar como alguns preferem. A pluridisciplinaridade, entendida como “uma simples associação de disciplinas que concorrem para uma realização comum, mas sem que cada disciplina tenha que modificar significativamente a sua própria visão das coisas e os seus próprios métodos” (Delattre, 1992) existe desde sempre e por si só não caracteriza nenhum modo particular de acção; ela existe na saúde e em qualquer outra actividade onde se juntam profissionais diferentes.
A constatação do trabalho pluridisciplinar na saúde, por si só não justificaria tão empenhada defesa da enfermagem do tema, profusamente nomeado e raramente analisado. Há, provavelmente, algo de oculto, de não dito, a passar debaixo dos discursos sobre a equipa pluridisciplinar; é isso que me parece importante examinar. Podemos estar a falar de um desejo de participação mais efectiva nas decisões sobre o planeamento e a orientação dos cuidados de saúde (Neves, 2012) e do correspondente reconhecimento dos contributos dos enfermeiros e isso significa um verdadeiro desafio não só para os profissionais de enfermagem como para os que produzem conhecimento sobre a profissão. A questão é que a pluridisciplinaridade está garantida à partida pela simples presença de vários profissionais vindos de áreas disciplinares afins, mas distintas; mas esse facto não chega para garantir a existência de uma equipa da mesma forma que um monte de tijolos não chega a ser uma casa. Quer isto dizer que o fundamental estará sempre na relação que se estabelece entre os diferentes participantes e não na sua mera presença e, como esta relação é altamente condicionada por questões de estatuto, de poder, de autoridade e liderança muitas vezes não explícitas, o que se assiste em regra é a um evitamento tácito dos vários níveis de confronto facilmente previsíveis. Uma boa parte da literatura citada por Neves (2012) na realidade aborda é a questão da interdisciplinaridade e são vários os estudos que colhem e analisam a perspectiva do cliente, constatando que “a interdisciplinaridade foi percebida como uma melhoria nos cuidados de saúde prestados ao utente e à população”. Ainda assim, esta percepção sobre o resultado não desoculta o que se passa na black box do processo de funcionamento da equipa. Haverá realmente trabalho interdisciplinar em equipa? É a interdisciplinaridade que pode formar uma equipa e produzir melhores resultados em saúde, mas contrariamente ao conceito simples de pluridisciplinaridade, aqui há a constituição de “um formalismo suficientemente geral e preciso que permita exprimir numa linguagem única os conceitos, as preocupações, os contributos de um número maior ou menor de disciplinas, que de outro modo, permaneceriam fechadas nas suas linguagens especializadas” (Delattre, 1992).
É aqui que reside o principal desafio para a enfermagem. É preciso estar-se muito seguro da especificidade dos saberes próprios, dos métodos de abordagem da realidade e dos instrumentos técnicos específicos para entrar adequadamente num processo de integração de saberes. Fica para outra reflexão a análise de alguns aspectos particulares da comunicação em saúde e as problemáticas da investigação interdisciplinar.
Referências
Delattre, Pierre (1992). Investigações interdisciplinares: objectivos e dificuldades. In H. Guimarães; J. Conceição; O. Pombo; T. Levy (orgs.) Antologia II, Lisboa: Projecto Mathesis/ Dep. De Educação da Faculdade de Ciências de Lisboa.
Lemos, Lígia (s.d.). A visibilidade da Enfermagem. Ordem dos Enfermeiros. [http://www.ordemenfermeiros.pt/sites/madeira/informacao/Documents/Artigos%20Enfermeiros/A%20Visibilidade%20da%20Enfermagem,%20por%20Enf%20l%C3%ADgia%20Lemos%20Enfermeira%20Especialista%20em%20Sa%C3%BAde%20Materna%20e%20Obst%C3%A9trica.pdf].
Neves, Marília (2012). O papel dos enfermeiros na equipa multidisciplinar em Cuidados de Saúde Primários – Revisão sistemática da literatura. Coimbra: Revista de Enfermagem Referência, vol.ser III (8) dez.2012 [http://www.scielo.oces.mctes.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0874-02832012000300013].
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