quinta-feira, 21 de março de 2019

Antonio Damasio: A busca para entender consciência




Into the black box. Muitas das teorias sobre o que somos e o que comunicamos, sobre a forma como representamos o real foram desenhadas no pressuposto de que não era possível observar a mente em funcionamento. O estudo da mente tem-se feito através dos outputs sejam eles respostas comportamentais ou fisiológicas, mais ou menos à semelhança do que acontece com a caixa negra. A mente continua a ser algo muito complexo que de aproximação em aproximação vai sendo desvendado os seus mistérios. Os estudos no âmbito das neurociências vai revelando como vemos e representamos o mundo a partir da consciência do nosso corpo e dos nossos processos. O nosso cérebro parece estar equipado para preencher espaços em branco e isso pode até explicar as diferentes perspectivas sobre uma mesma realidade, mas fica-me tanto para compreender.
Qual será o problema da humanidade? Das guerras, da fome, do fanatismo?... Será do córtex?

Conferência de António Damásio

O Cérebro, o Corpo, e a Naturalidade da ConsciênciaCiclo Diálogos do cérebro – encontros de mentes diversas

Dom, 2 junho 2019 -  18:30 até 19:30 Entrada gratuita sujeita à lotação do espaço
Fundação Calouste Gulbenkian

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Os limites da relação


Tanto os estudantes como os profissionais colocam muitas vezes a questão sobre o estabelecimento dos limites, o não envolvimento afectivo com a pessoa ou a família que beneficia dos cuidados. O assunto é complexo, mas talvez possa ser analisado em duas frentes problemáticas. Por um lado, estão as questões de bem-estar e segurança do enfermeiro e por outro, as questões éticas da profissão.
Alguns estudos mais recentes têm incidido sobre os problemas emocionais e de desgaste profissional associados à síndrome de burnout, e mesmo que as manifestações não sejam tão explícitas, detectam-se sentimentos de negatividade, face à profissão, manifestados por comportamentos de evitamento dos pacientes ou a redução do contacto a actividades em que a técnica e a tecnologia servem de objectos intermediários.
A ética da profissão exige que se ofereça ao paciente o nível mais elevado de cuidados, não por qualquer favor ou compaixão do enfermeiro, mas porque é um direito seu. Os enfermeiros prestam um serviço com determinadas características, que é único e exclusivo da enfermagem, com regulação legal e deontológica. A natureza dos cuidados implica normalmente uma grande aproximação da pessoa que chega muitas vezes à zona de intimidade física e sobretudo emocional. Não é fácil para ambas as partes.
Para o paciente isso significa reconhecer no profissional, um grande aliado e entregar-se confiando que a sua dignidade será respeitada. Para o profissional é sempre um grande desafio no qual terá de gerir também as suas emoções. O cliente poderia ser um filho nosso, um pai, uma mãe, um avô, mas não o é. E talvez esse seja, para o enfermeiro, o primeiro e o importante limite da relação terapêutica. Ainda que seja reconhecido, desde Peplau um papel de substituto – o enfermeiro desempenha, temporariamente, o papel de alguém que falta à pessoa – essa é uma representação consciente com fins de ajuda terapêutica, que só se consegue quando o enfermeiro tem uma elevada consciência dos limites da relação, mas não só. Consegue comunicá-los ao paciente sem ambiguidades.
A problemática dos limites da relação profissional está fortemente ligada a outros aspectos da aprendizagem como o auto-conhecimento e a auto-consciência. Como se podem desenvolver essas aprendizagens?
Os jovens estudantes de enfermagem são muitas vezes lançados precocemente no contacto com a profissão real com tudo o que ela tem de belo e também de assustador. Conhecem boas práticas e também muito encorajamento a práticas e atitudes pouco correctas por parte de alguns profissionais. A sua impreparação e até imaturidade emocional confere-lhes uma grande vulnerabilidade. Podem até questionar-se, ter consciência das suas limitações, mas o mais natural é que, muito legitimamente, respondam de forma defensiva e estruturem esses mecanismos, porque funcionam.
Wendy McIntosh é especialistas nesta área dos limites da relação profissional com bastante experiência na formação de enfermeiros na área da saúde mental Nos cursos e workshops que faz em vários locais da Austrália e também do Canadá, analisa os depoimentos dos formandos, após a formação, nos quais sobressai, numa parte a referência à consciência da diminuição do seu estado de negatividade face aos clientes e, para outros, uma espécie de alívio face ao estabelecimento de limites. Quando esses limites são reflectidos e interiorizados, o comportamento profissional torna-se mais natural, distendido, espontâneo. Podemos imaginá-lo também, mais próximo e mais seguro.
Quando falamos do uso terapêutico do self como uma intervenção de natureza relacional em que o enfermeiro usa a sua própria pessoa como instrumento de trabalho, isso é bem mais complexo que escrevê-lo assim numa frase. O que isso envolve está muito para além do alcance do que é possível atingir com aulas, mesmo que sejam práticas ou teórico-práticas. O trabalho de desenvolvimento da auto-consciência exige uma entrega do estudante com alguma semelhança com o que reconhecemos no contexto da relação terapêutica. O auto-conhecimento transforma-nos; é um processo de crescimento de desenvolvimento pessoal que não é substituível por informação ou aquisições intelectuais. Carl Rogers chamava a atenção para um curioso paradoxo em que será necessário um conhecimento e uma aceitação de si próprio para poder mudar. É essa mudança para um nível de auto-consciência que nos capacita para gerir os limites e usar terapeuticamente o self.
Mc Intosh acredita que este processo de relação com os limites, ao contrário do que talvez se pudesse imaginar, é favorecido por uma boa compreensão da teoria do apego ou da vinculação, iniciada pelo psicólogo do desenvolvimento, John Bowlby, a partir da sua primeira publicação em 1958. Tem particular importância por se tratar de relações assimétricas que correm o risco de se tornarem paternalistas e superprotectoras em vez de promoverem a autonomia. A referida autora, cita Nancy Schimelpfening, para nos ajudar a compreender a noção de limites aplicada ao domínio pessoal e profissional:
Os limites são o espaço emocional e físico que colocamos entre nós e os outros. Definir limites adequados é importante para a nossa saúde mental. Quando não são definidos os limites apropriados, corremos o risco de nos tornarmos muito distantes ou muito dependentes dos outros (*).
 (Schimelpfening, 2007, cit. em Wendy’s blog)

Referências
McIntosh, Wendy (2013). Are you Crossing the Line? In Dr Wendy's Blog, Nursing, 8 April. http://davaar.com.au/dr-wendys-blog/crossing-the-line/
Rogers, Carl (1980). Tornar-se Pessoa. 5ªed., Lisboa: Moraes Editores.


(*) [Boundaries are the emotional and physical space that we place between ourselves and others. Setting proper boundaries is important to our mental health. When appropriate boundaries are not set, we run the risk of becoming either too detached from or too dependent upon others.]

sábado, 29 de julho de 2017

Metáforas e Narrativas

Acabo de ler um pequeno artigo onde Priscilla Mainardi, uma enfermeira americana, se debruça sobre o modo como pontos de vista diferentes podem transformar a realidade e o significado de uma doença e do internamento hospitalar.

Rooms can confine us
or give us a special place to inhabit.


Ressalta daqui a importância de dar relevo às narrativas das experiências de cada um como forma de compreender o significado que o próprio sujeito atribui à sua vivência e como a inscreve existencialmente no seu eu-autobiográfico como diria António Damásio.

Ver artigo:

Rooms with a viewpoint: The metaphorical power of hospitals and medical complexes in illness narratives By Priscilla Mainardi, RN

July 16, 2017

terça-feira, 1 de novembro de 2016

O misterioso “efeito placebo”

Um artigo publicado no semanário Expresso, em 29 de Outubro de 2016, de autoria de Cristina Bernardo Silva, dá-nos conta de um estudo realizado em Portugal sobre a utilização do placebo em pessoas com lombalgias crónicas, informadas de que estavam a tomar umas cápsulas que apenas continham microcristais de celulose, uma substância inerte e sem qualquer princípio activo (Silva, 2016). Este estudo foi publicado na revista científica Pain e está a gerar alguma espectativa na comunidade científica sobre a “utilização ética do placebo”, no dizer de Cláudia Carvalho – a coordenadora do estudo – citada no artigo. Para além destes aspectos da investigação médica e dos tão controversos aspectos éticos dos ensaios clínicos, são referidos alguns aspectos bastante interessantes de outra natureza e que têm a ver com o ambiente e a relação terapêutica, a gestão de expectativas e os seus efeitos complementares aos chamados medicamentos de alívio. Sabe-se há muito que os efeitos da relação terapêutica ampliam os efeitos dos medicamentos e isso pode ter um impacto significativo na diminuição da terapêutica farmacológica e são, por exemplo, os médicos psiquiatras os primeiros a recomendar esta aliança terapêutica (APA, 2004).

Ted Kaptchuk (1949), professor de Medicina em Harvard e um dos co-autores do estudo, salienta que o “efeito placebo é o benefício que os doentes recebem do encontro terapêutico, incluindo os seus símbolos, rituais e interações humanas. Trata-se, fundamentalmente, de como a esperança interage com os cuidados médicos” (citado por Silva, 2016).

O que é que estas novidades podem trazer de novo para a enfermagem? 
Se não fosse parecer presunção, arrogância e pouco elegantes no trato com aqueles que temos como parceiros e aliados nos contextos dos cuidados de saúde, até poderíamos responder: basicamente, nada! Mas não será esta a resposta mais sensata e mais conveniente para uma profissão do cuidar centrado na pessoa e que está constantemente a invocar a parceria e o trabalho de equipa como via para a melhoria da qualidade dos cuidados de saúde. A abordagem mais correcta parece ser, pois, a da reflexão, no sentido crítico, e da interrogação sobre nós próprios. Como lemos hoje, estes avanços da investigação médica para campos um pouco mais estranhos aos terrenos laboratoriais, dos ensaios clínicos (às vezes de ética e legalidade duvidosas), do nível mais positivista dos tecidos e das células, da acção dos fármacos no tratamento das patologias? Não que haja novidade naquilo que chamam de relação médico-doente, mas uma emergência, ainda pouco notória do interesse dessa relação. A percepção que temos da tradicional relação médico-doente, continha muito do que se parece ter perdido na mais moderna medicina: uma relação de afecto, e no conhecimento profundo da vida da pessoa, baseada nas narrativas que atribuem significado aos acontecimentos, na observação, no toque, na palpação, na conversa tranquila e tranquilizadora, no aproveitamento dos recursos, saberes e mezinhas caseiras… Esta medicina do antigamente, abundantemente descrita na literatura ter-se-á perdido bastante mercê dos avanços da ciência positiva e do desenvolvimento tecnológico (alguém dizia: ‘agora, os médicos já não olham para os doentes nem os ouvem; pedem exames’. É predominantemente verdade, embora aqui e ali surjam movimentos que valorizam outros aspectos dos quais os mais relevantes dos últimos trinta anos tenha sido a produção literária do recentemente desaparecido Oliver Sacks e o movimento da Medicina Narrativa iniciado por Rita Charon.

E na enfermagem? A percepção que nos dá é a de que coexistem dois mundos paralelos: o disciplinar que se ocupa do conhecimento, da construção dos saberes teóricos e próprios da enfermagem através da investigação; e o profissional, muito ancorado nos saberes médicos e nos procedimentos organizacionais. Este modo como a enfermagem tende hoje a colocar-se faz com que os enfermeiros adoptem predominantemente o papel de colaboradores – ou mesmo substitutos – dos médicos nas actividades de diagnóstico e terapêutica e, também, das instituições de saúde, de quem assumem a função de autoridade, de vigilância, de controlo dos doentes com vista – talvez isto nunca chegue a ser explícito ou tornado verdadeiramente consciente – a uma diminuição dos tempos de internamento. Ora, não é bem desta enfermagem que nos fala a história e os referenciais subscritos pelas academias e organizações profissionais dos enfermeiros. Nas diferentes filiações da profissão, a filiação médica é sem dúvida uma componente importante. No caso de Portugal, até poderíamos falar de “colonização” da enfermagem por parte dos médicos. Ao contrário do que se passou em vários países, sobretudo Inglaterra, Estados Unidos e Canadá, o ensino da profissão no nosso país iniciou-se e perdurou no domínio absoluto dos hospitais, que formavam os “seus” enfermeiros, e sob a direcção dos médicos. Esta realidade durou até à primeira metade da década de 60 do século passado, altura em que há a primeira verdadeira reforma do ensino de enfermagem. Será curioso notar que várias escolas de enfermagem adotaram o nome dos médicos seus fundadores (Artur Ravarra, Bissaya Barreto, Ângelo da Fonseca, Lopes Dias…).

Apesar de já estarmos num período de desenvolvimento teórico da enfermagem (uma espécie de ‘renascimento’ das bases lançadas por Nightingale, praticamente um século antes) que procurava um saber próprio da enfermagem – uma ontologia e uma epistemologia consistentes – essa influência tardou a chegar a Portugal e só nos anos 1970 começa a ser notada na formação e sem particular evidência ao nível da prática profissional. Temos a percepção de que após uma tendência de mudança que caracterizou o início dos anos 1980, a enfermagem se tem vindo lentamente a afastar deste referencial que coloca a pessoa e o seu bem-estar no centro da sua acção em favor de uma prática mais medicalizada, mais intermediada pelos recursos tecnológicos e mais afastada das vivências da pessoa a quem se prestam cuidados. Se aquilo que ainda é uma percepção de uma tendência se confirmar, não é difícil imaginar o fim de uma profissão por abandono das suas matrizes essenciais. Estamos a tempo de uma espécie de movimento de salvação da enfermagem? Quem se move pelos campos da produção teórica e da investigação pode observar que existe uma forte vontade de crescimento na área matricial do cuidar, da importância da relação, no ‘empowerment’, na valorização da capacidade da pessoa e da responsabilidade pelo seu auto-cuidado, na educação para a saúde, para o bem-estar, para a autonomia… Mas, quem igualmente se move, muitas vezes como utilizador dos serviços de saúde ou familiar acompanhante, constata uma realidade diferente. Poder-se-ia dizer que, salvo honrosas excepções, que os profissionais titulados como enfermeiros revelam uma prática distante do seu referencial e do que é suposto ser ensinado e aprendido nas escolas. Bastaria a verificação da lista de competências preconizada pela Ordem dos Enfermeiros, para constatar que, principalmente no contexto hospitalar, há, com demasiada frequência, pouca enfermagem nas diferentes interacções ao longo do dia, e com menor frequência situações em que não há enfermagem ou mesmo um comportamento, no mínimo,
pouco apropriado.


Partimos. Vamos. Somos. 
Com estas três palavras, que tanto podem ser lidas como uma exortação ou como uma simples constatação de estado, termina Sebastião da Gama o seu poema Pelo sonho é que vamos. Sebastião da Gama, poeta que cantou a Arrábida, o amor e a vida, teve outra(?) vertente eventualmente menos conhecida: foi um extraordinário pedagogo na sua curta, mas intensa vida. Utilizemos este verso, estes verbos que evocam ecos de outras poesias caminheiras a construírem os seus próprios caminhos, para olhar e analisar os caminhos da enfermagem e compaginar esse olhar com a notícia que provocou este escrito e cujo maior relevo será a consciencialização de alguns médicos que não basta dar o medicamento correcto, na dose certa, no momento certo e pela via mais adequada e que a forma como se dá esse medicamento, a relação que se estabelece, o modo como se está com a pessoa pode fazer toda a diferença.
 Quando cautelosamente respondemos que isto nada traz de novo ou ensina aos enfermeiros e às enfermeiras, a cautela será apenas por delicadeza. A enfermagem tem na sua genética estes saberes e estas práticas. Mas, por outro lado, deveremos estar assim tão tranquilos à sombra dessa matriz?
Fica como desafio para discussão e posteriores desenvolvimentos.

 Referências
APA – American Psychiatric Association (2004). Pratice guideline for the tretement of patients with schizofrenia 2ª Ed. [http://psychiatryonline.org/pb/assets/raw/sitewide/practice_guidelines/guidelines/schizophrenia.pdf]

Brauser, Deborah (2016). Taking a Placebo, Even Knowingly, May Decrease Chronic Lower Back Pain. Medscape Medical News, October 28, 2016 [http://www.medscape.com/viewarticle/871092?nlid=110384_3681&src=wnl_dne_%%=v(@date)=%%_mscpedit&uac=%%UAC%%&impID=%%JOBID%%&faf=1] Carvalho, Cláudia; Caetano, Joaquim Machado; Cunha, Lidia; Rebouta, Paula;

Kaptchuk, Ted J.; Kirsch, Irving (2016). Open-label placebo treatment in chronic low back pain: a randomized controlled trial. Pain, Published online October 14, 2016 [http://journals.lww.com/pain/Abstract/publishahead/Open_label_placebo_treatment_in_chronic_low_back.99404.aspx]

Silva, Cristina Bernardo (2016). Placebo alivia mesmo quem sabe que é falso. Expresso, 29 Outubro 2016, p. 24.

terça-feira, 12 de julho de 2016

Michel Foucault Poder e Saber

Penso muito sobre de onde me vem tamanha curiosidade sobre os diversos aspectos da loucura. Sempre lembro de me tentarem assustar com aqueles a quem chamavam loucos, mas isso em mim tinha um efeito contrário. Sentia-me atraído pela sua estranha diferença e o que mais queria era perceber como é que eles viam o mundo. Muito antes de começar a estudar estes fenómenos já eu tinha um mundo de interrogações que não sendo ainda científicas, também já não eram as do senso comum. Ouvia falar de que alguns eram internados e presos com coletes de forças e levavam choques eléctricos... E via-os mais tarde regressar com olhos mortiços e os corpos parados e ouvia que estavam melhores, mas eu via-os quase sem vida... Falava-se de que o Joaquim da Alice andava com uma "cisma" e eu via-o encostado a uma parede, calado, com os olhos no chão , num movimento lento e repetido ia escavando um buraco no chão com o bico da bota... Mais tarde comecei a estudar estas coisas. Ainda não desisti.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

O mito da equipa multidisciplinar

A enfermagem deve ser das profissões da saúde que mais advoga o trabalho em equipa e assume fazer parte de uma equipa multidisciplinar ou pluridisciplinar. É quase um cliché e uma retórica mantida ao longo de décadas, mas qual é o seu verdadeiro significado? Por que é que este tema é tão caro aos enfermeiros e às enfermeiras e igualmente aos responsáveis pela sua formação, os docentes dos cursos de enfermagem? Vejamos alguns exemplos:
"Atualmente, o enfermeiro é visto como um profissional altamente qualificado, e autónomo, competente e integrante duma equipe multidisciplinar, sendo o elo de ligação, entre o cliente/população e a restante equipa de saúde […e ] será aquele capaz de se inserir como promotor de saúde, dos projetos individuais de cada utente e, ao mesmo tempo, promover a adaptação das diferentes respostas humanas aos processos patológicos que possam existir, integrado numa equipe multiprofissional, possuindo a habilidade e destreza manual e mental para utilizar os mais sofisticados equipamentos advindos da moderna tecnologia de suporte avançado de vida […] o enfermeiro atua interagindo com os demais elementos inseridos no sistema de cuidados em saúde"(Lemos, s.d.).
No mesmo texto, Lígia Lemos refere-se três vezes à ideia do trabalho numa equipa multidisciplinar ou multiprofissional – o que não será bem a mesma coisa – deixando ver que se trata de algo importante na caracterização do trabalho dos enfermeiros, mas sem nunca se deter em alguma análise ou descrição sobre a natureza dessa relação. Tudo parece um adquirido, suficientemente entendido no espaço disciplinar e da enfermagem, mas sê-lo-á para os outros profissionais? Marília Neves, num artigo de revisão sobre o papel do enfermeiro na equipa multidisciplinar parece chegar à conclusão que
"O papel profissional do enfermeiro na equipa multidisciplinar dos Cuidados de Saúde Primários surge pouco explícito, com tendência a uma perceção estereotipada pelos outros profissionais, mas começando a emergir algumas expectativas por parte dos utentes que o percebem como facilitador no acesso aos cuidados, valorizando as suas competências relacionais e culturais" (Neves, 2012).
É interessante esta dualidade observada entre a visão “estereotipada” dos outros profissionais e a percepção daqueles que são os beneficiários dos cuidados de saúde. Há algo de paradoxal nesta formulação (e em muitas outras que poderíamos tomar como exemplo) em que um desejo de afirmação profissional através da pertença a uma equipa acaba por ser ver negado na prática, a favor de uma relação de entendimento onde ela é efectivamente primordial. Seria talvez leviano colocar em causa a existência de uma equipa de cuidados, até porque as problemáticas humanas têm uma extensão e uma magnitude que ultrapassa a capacidade e o conhecimento de uma só disciplina ou de uma só profissão, mas não parece de todo descabido o aprofundamento de uma reflexão sobre o assunto.
O conhecimento e as técnicas de intervenção foram-se especializando e dividindo tanto em ordem ao seu objecto cada vez mais específico quanto em ordem aos instrumentos e métodos utilizados (Delattre, 1992) produzindo disciplinas e desenvolvendo linguagens que podem chegar a ser quase incompreensíveis mesmo dentro do mesmo campo de intervenção. Esta é uma problemática também interessante a ser analisada na óptica da comunicação interdisciplinar e vamos deixá-la por agora em benefício de uma compreensão mais ampla do significado da retórica sobre a equipa multidisciplinar ou pluridisciplinar como alguns preferem. A pluridisciplinaridade, entendida como “uma simples associação de disciplinas que concorrem para uma realização comum, mas sem que cada disciplina tenha que modificar significativamente a sua própria visão das coisas e os seus próprios métodos” (Delattre, 1992) existe desde sempre e por si só não caracteriza nenhum modo particular de acção; ela existe na saúde e em qualquer outra actividade onde se juntam profissionais diferentes.
A constatação do trabalho pluridisciplinar na saúde, por si só não justificaria tão empenhada defesa da enfermagem do tema, profusamente nomeado e raramente analisado. Há, provavelmente, algo de oculto, de não dito, a passar debaixo dos discursos sobre a equipa pluridisciplinar; é isso que me parece importante examinar. Podemos estar a falar de um desejo de participação mais efectiva nas decisões sobre o planeamento e a orientação dos cuidados de saúde (Neves, 2012) e do correspondente reconhecimento dos contributos dos enfermeiros e isso significa um verdadeiro desafio não só para os profissionais de enfermagem como para os que produzem conhecimento sobre a profissão. A questão é que a pluridisciplinaridade está garantida à partida pela simples presença de vários profissionais vindos de áreas disciplinares afins, mas distintas; mas esse facto não chega para garantir a existência de uma equipa da mesma forma que um monte de tijolos não chega a ser uma casa. Quer isto dizer que o fundamental estará sempre na relação que se estabelece entre os diferentes participantes e não na sua mera presença e, como esta relação é altamente condicionada por questões de estatuto, de poder, de autoridade e liderança muitas vezes não explícitas, o que se assiste em regra é a um evitamento tácito dos vários níveis de confronto facilmente previsíveis. Uma boa parte da literatura citada por Neves (2012) na realidade aborda é a questão da interdisciplinaridade e são vários os estudos que colhem e analisam a perspectiva do cliente, constatando que “a interdisciplinaridade foi percebida como uma melhoria nos cuidados de saúde prestados ao utente e à população”. Ainda assim, esta percepção sobre o resultado não desoculta o que se passa na black box do processo de funcionamento da equipa. Haverá realmente trabalho interdisciplinar em equipa? É a interdisciplinaridade que pode formar uma equipa e produzir melhores resultados em saúde, mas contrariamente ao conceito simples de pluridisciplinaridade, aqui há a constituição de “um formalismo suficientemente geral e preciso que permita exprimir numa linguagem única os conceitos, as preocupações, os contributos de um número maior ou menor de disciplinas, que de outro modo, permaneceriam fechadas nas suas linguagens especializadas” (Delattre, 1992).
É aqui que reside o principal desafio para a enfermagem. É preciso estar-se muito seguro da especificidade dos saberes próprios, dos métodos de abordagem da realidade e dos instrumentos técnicos específicos para entrar adequadamente num processo de integração de saberes. Fica para outra reflexão a análise de alguns aspectos particulares da comunicação em saúde e as problemáticas da investigação interdisciplinar.
Referências
Delattre, Pierre (1992). Investigações interdisciplinares: objectivos e dificuldades. In H. Guimarães; J. Conceição; O. Pombo; T. Levy (orgs.) Antologia II, Lisboa: Projecto Mathesis/ Dep. De Educação da Faculdade de Ciências de Lisboa.
Lemos, Lígia (s.d.). A visibilidade da Enfermagem. Ordem dos Enfermeiros. [http://www.ordemenfermeiros.pt/sites/madeira/informacao/Documents/Artigos%20Enfermeiros/A%20Visibilidade%20da%20Enfermagem,%20por%20Enf%20l%C3%ADgia%20Lemos%20Enfermeira%20Especialista%20em%20Sa%C3%BAde%20Materna%20e%20Obst%C3%A9trica.pdf].
Neves, Marília (2012). O papel dos enfermeiros na equipa multidisciplinar em Cuidados de Saúde Primários – Revisão sistemática da literatura. Coimbra: Revista de Enfermagem Referência, vol.ser III (8) dez.2012 [http://www.scielo.oces.mctes.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0874-02832012000300013].

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Desanormalidades


As minhas reflexões sobre a saúde mental e um enorme conjunto de circunstâncias associadas a esta noção começaram há muitos anos. Primeiro, com o deslumbramento de quem está a descobrir o conhecimento novo e a crença de que com isso ficamos equipados para melhor compreender os outros e o mundo. Ainda hoje, continuo a acreditar que isso é verdade. Depois começa a nascer uma dúvida aqui, outra ali; começamos a ler perspectivas diferentes sobre as mesmas problemáticas e, sobretudo começamos a tomar consciência do que se passa com pessoas, com a sua existência, apanhadas nas malhas da psiquiatria.

"Psiquiatria" é uma palavra muito ambígua. Eu que gosto das palavras seria talvez capaz de escrever um tratado, apenas sobre esta palavra. Ela designa tanto um conhecimento médico como um sistema que tanto pode ser de "tratamento", capaz de ajudar pessoas em dificuldade, como um sistema repressivo e de encarceramento mais violento e mais cruel que o pior dos sistemas judiciários. Sobre o bom e o mau da psiquiatria, sobre a genialidade de alguns actores e a completa idiotice de outros ao longo da sua já longa história (e refiro-me apenas ao período dito científico) já muito se escreveu, muita polémica correu, sobretudo na segunda metade do século vinte. A psiquiatria é também e sempre foi um poder. Um poder especial, não completamente destituído de escrutínio, mas quase. A história da psiquiatria está repleta de criminosa desumanidade impune. Mais facilmente se julga um acto de sevícias numa prisão do que num hospital psiquiátrico. Ainda que actualmente a situação esteja diferente, o estado de direito não se aplica muito na psiquiatria que muitas vezes parece realmente um "estado de excepção" legalmente autorizado.

Um conto de García Márquez em Doze Contos Peregrinos (1994, Lisboa: Editores Reunidos) conta a história de uma mulher apanhada pelas malhas deste sistema psiquiátrico e o "tratamento" a que é sujeita para uma "patologia" inexistente. O conto chama-se "Só vim fazer um telefonema" e vale a pena ler.

A psiquiatria usa um poder que lhe vem de um saber especializado, para agir sobre a vida das pessoas. Decide que uma pessoa tem uma determinada patologia confirmada por um conjunto de sinais e sintomas interpretados de acordo com um quadro de referência partilhado pela comunidade científica. Estes quadros de referência, para além do saber clínico de base, da semiologia e da hermenêutica médica estão em grande parte traduzidos nos sistemas de classificação das perturbações mentais, dos quais o mais conhecido é o DSM (acrónimo de Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders) que já vai na sua quinta edição. Este "catálogo de doenças", tomado quase como uma bíblia para muitos psiquiatras é, por outro lado uma espécie de "código penal" se o olharmos do ponto de vista das suas consequências na vida do cidadão comum que procura ajuda num sistema que se oferece com essa missão.
Ora, Allen Frances, professor emérito, ex-director do departamento de psiquiatria da Duke University nos EUA e que foi presidente do grupo de trabalho da DSM-IV vem agora dizer, numa entrevista publicada no El País (na sua edição brasileira) que afinal cometeram um grande erro ao transformarem os problemas comuns das pessoas em perturbações mentais, doenças que devem ser tratadas, portanto. E não esconde a mais do que óbvia influência da indústria farmacêutica nisto tudo. É pois necessário convencer as pessoas que estão doentes e que precisam de tomar medicamentos!
Chegamos assim ao negócio legal da droga. E andamos preocupados com uns putos que fumam uns charros.