quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Desanormalidades


As minhas reflexões sobre a saúde mental e um enorme conjunto de circunstâncias associadas a esta noção começaram há muitos anos. Primeiro, com o deslumbramento de quem está a descobrir o conhecimento novo e a crença de que com isso ficamos equipados para melhor compreender os outros e o mundo. Ainda hoje, continuo a acreditar que isso é verdade. Depois começa a nascer uma dúvida aqui, outra ali; começamos a ler perspectivas diferentes sobre as mesmas problemáticas e, sobretudo começamos a tomar consciência do que se passa com pessoas, com a sua existência, apanhadas nas malhas da psiquiatria.

"Psiquiatria" é uma palavra muito ambígua. Eu que gosto das palavras seria talvez capaz de escrever um tratado, apenas sobre esta palavra. Ela designa tanto um conhecimento médico como um sistema que tanto pode ser de "tratamento", capaz de ajudar pessoas em dificuldade, como um sistema repressivo e de encarceramento mais violento e mais cruel que o pior dos sistemas judiciários. Sobre o bom e o mau da psiquiatria, sobre a genialidade de alguns actores e a completa idiotice de outros ao longo da sua já longa história (e refiro-me apenas ao período dito científico) já muito se escreveu, muita polémica correu, sobretudo na segunda metade do século vinte. A psiquiatria é também e sempre foi um poder. Um poder especial, não completamente destituído de escrutínio, mas quase. A história da psiquiatria está repleta de criminosa desumanidade impune. Mais facilmente se julga um acto de sevícias numa prisão do que num hospital psiquiátrico. Ainda que actualmente a situação esteja diferente, o estado de direito não se aplica muito na psiquiatria que muitas vezes parece realmente um "estado de excepção" legalmente autorizado.

Um conto de García Márquez em Doze Contos Peregrinos (1994, Lisboa: Editores Reunidos) conta a história de uma mulher apanhada pelas malhas deste sistema psiquiátrico e o "tratamento" a que é sujeita para uma "patologia" inexistente. O conto chama-se "Só vim fazer um telefonema" e vale a pena ler.

A psiquiatria usa um poder que lhe vem de um saber especializado, para agir sobre a vida das pessoas. Decide que uma pessoa tem uma determinada patologia confirmada por um conjunto de sinais e sintomas interpretados de acordo com um quadro de referência partilhado pela comunidade científica. Estes quadros de referência, para além do saber clínico de base, da semiologia e da hermenêutica médica estão em grande parte traduzidos nos sistemas de classificação das perturbações mentais, dos quais o mais conhecido é o DSM (acrónimo de Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders) que já vai na sua quinta edição. Este "catálogo de doenças", tomado quase como uma bíblia para muitos psiquiatras é, por outro lado uma espécie de "código penal" se o olharmos do ponto de vista das suas consequências na vida do cidadão comum que procura ajuda num sistema que se oferece com essa missão.
Ora, Allen Frances, professor emérito, ex-director do departamento de psiquiatria da Duke University nos EUA e que foi presidente do grupo de trabalho da DSM-IV vem agora dizer, numa entrevista publicada no El País (na sua edição brasileira) que afinal cometeram um grande erro ao transformarem os problemas comuns das pessoas em perturbações mentais, doenças que devem ser tratadas, portanto. E não esconde a mais do que óbvia influência da indústria farmacêutica nisto tudo. É pois necessário convencer as pessoas que estão doentes e que precisam de tomar medicamentos!
Chegamos assim ao negócio legal da droga. E andamos preocupados com uns putos que fumam uns charros.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

O hospital visto do lado de cá


Passei dois dias dentro de um hospital porque a C. foi operada. Entrou no próprio dia de manhã bem cedo e, como ainda não tinha um quarto vago no internamento fez a sua preparação no ambulatório e daí seguiu para o bloco operatório onde entrou pouco passava das 10 horas.
Nessa altura saí para o exterior. Fui comer e deixei-me ficar na pastelaria a ler até cerca do meio-dia. Voltei ao hospital e dirigi-me ao bloco. Há um serviço de informações onde podemos ir sabendo do trajecto da pessoa. A informação dada por uma administrativa foi de que tinha acabado de sair da sala de operações e estava agora no “recobro”. Não consegui saber mais nada, mas ainda era cedo e presumi que estava tudo dentro da normalidade. Mais pessoas tentavam saber dos familiares e vi entrar um enfermeiro com uma auxiliar e saírem pouco depois trazendo na cama com um doente recém-operado.
Fiquei por ali, no corredor aproveitando o tempo de espera em leitura, mas também observando o movimento relativamente calmo do hospital. Percebo que estamos na hora de almoço e a frequência com que passam pessoas fardadas diminui significativamente. Reconheço um empregado da pastelaria onde também servem refeições que veio trazer algumas refeições. Vem até munido de um terminal para pagamento com multibanco.
Volto às informações e sou novamente recebido com simpatia pela mesma funcionária que me diz que a dona C. deve sair por volta das 13:30; que vai para o piso dois, cama 217 e que posso aguardar lá. São 13:15. Fico por ali mais um pouco, tentando perceber por que porta sairá a C. para a poder acompanhar logo. No corredor há mais gente igualmente ansiosa. Volto à zona de informações que é já dentro do bloco e no corredor por onde vejo sair os doentes do recobro. Vejo o enfermeiro que levou a C. para o bloco; reconhece-me e sorri. Pergunto se a vai buscar, mas não. Ele é do ambulatório e vai buscar outra pessoa. Na volta diz-me que ela já acordou e está bem. A funcionária que me deu informações diz-me que não posso permanecer ali. Mas eu quero ver a C. logo à saída. Explica-me que sobe pelo elevador interno e sai no segundo piso. Vou para o segundo piso e dirijo-me ao posto de enfermagem, digo que sou familiar de C. que está prestes a vir do bloco para a cama 217. A enfermeira diz-me que se quiser posso aguardar no quarto. Pergunto por que ainda não veio e a resposta é quase seca: “ainda não tivemos oportunidade”. É a hora de almoço, pensei. Fui ao quarto, mas saí pouco depois e vim para o corredor. Vejo sair uma enfermeira com uma auxiliar e pergunto se a vão buscar. Confirmam que sim e eu sigo mais devagar atrás delas. A porta por onde sairá a C. fica no fundo do corredor. Não demoraram muito. Pouco passa das 14:30 e a porta abre-se. A C. vem na cama com uma bolsa de soro pendurado, vê-me e acena com a mão e um sorriso. Está acordadíssima e parece-me bem.
A partir daí estive quase todo o tempo no quarto até cerca das 23 horas e no dia seguinte, das 11 às 14 horas, momento em que a C. saiu com alta.
Posso considerar esta experiência como uma visita de observação do funcionamento actual de um hospital que é privado, situado na cidade de Lisboa. Tudo aconteceu nos dias 23 e 24 de Outubro de 2013. Acrescente-se que já tinha tido, eu próprio, uma experiência de internamento, para um intervenção de neurocirurgia para correcção de uma hérnia discal e a observação dessa altura (2010) não difere muito desta.
As instalações e a actividade geral
A primeira impressão é de que entramos num hotel. A decoração, o design dos percursos, o atendimento, tudo parece concebido para eliminar o “cheiro” clínico. O bacão de atendimento procede ao “check in” e ao “check out” com a natural neutralidade de qualquer estabelecimento hoteleiro, tirando talvez a máquina de dispensa de senhas numeradas (aí faz mais lembrar um banco, ou uma repartição de finanças). A funcionária trata-nos com profissional simpatia e cobra adiantado de acordo com o orçamento.
Percebe-se que se está numa organização pensada ao milímetro e nota-se o sentido de eficiência também no “staff” que cumpre uma espécie de encenação eventualmente sujeita a alguns deslizes. Há um fenómeno bastante ubíquo que é o dos profissionais “em sua casa” como que “apagarem” a existência dos outros, os paradoxalmente estranhos –os clientes – quando, noutro registo são tidos como toda a razão do serviço que prestam. Desde a conversa sobre assuntos privados e de circunstância até uma jocosa reprimenda (“funcionário administrativo ou chega a horas, ou chega cedo”) tudo se pode ouvir enquanto se espera, já no interior de um serviço.
O que fazem os enfermeiros
Não tive oportunidade de perceber se a dotação de enfermeiros por turno é a adequada por não ter uma dimensão concreta do serviço, nem do nível de dependência dos doentes, contudo não me pareceram assoberbados com trabalho ou apressados. Parece que tudo corre com alguma calma. O posto de enfermagem não sendo propriamente um panóptico tem uma localização aberta, quase central, do tipo balcão secretária. É aí que os enfermeiros fazem os registos num terminal de computador e actualizam outro tipo de documentação. Uma sala de trabalho de enfermagem e uma outra dependência menos visível completam este espaço.
A equipa de enfermagem é extraordinariamente jovem; poucos terão mais de trinta anos e a grande maioria são mulheres.
As enfermeiras com quem contactámos foram sempre correctas no trato, mas sentia-as pouco empenhadas na relação com a pessoa, pouco cuidadoras. A impressão que dão é de que cumprem escrupulosamente as prescrições, mas não criam qualquer proximidade com os doentes (a imagem que deixam na doente C. é “as enfermeiras são pessoas que nos dão coisas para tomar”) e não se detêm para explicar o que fazem, limitando-se a informar genericamente (vamos ver como estão os pensos), a fazer perguntas instrumentais (tem dores?) e mesmo quando questionadas sobre a natureza de um medicamento apenas respondem que “é a medicação prescrita”.
A presença
A equipa de enfermagem parece cumprir um guião fortemente instrumental e administrativo que se sobrepõe ao aspecto relacional e expressivo. A presença junto do doente ou familiares é diminuta e nunca aconteceu fora de qualquer procedimento objectivo. Um outro aspecto referenciado pelo testemunho da C. é que mesmo na escassa presença as enfermeiras apresentam uma relação muito padronizada que não tem em conta a individualidade.
Contrastante com esta atitude, o pessoal auxiliar estabelece uma maior proximidade e “uma relação mais humana”, como refere C., procurando saber como a pessoa se sente e de ajuda necessita.
Reflexão crítica
Não é minha intenção estabelecer qualquer juízo avaliativo do papel da enfermagem, até porque a observação é bastante limitada, contudo não posso deixar de confrontar esta experiência e observação, bem como o testemunho da doente, com aquilo que é a matriz da profissão de enfermagem, a orientação do ensino e todo o referencial para a prática dos cuidados de enfermagem, nomeadamente o conjunto de competências preconizado pela Ordem dos Enfermeiros que só por si resume de forma actualizada o “estado da arte”.
Bastará citar o primeiro dos considerandos para a elaboração do regulamento de competências (OE, 2012) onde se assume que o exercício profissional da Enfermagem centra-se na relação interpessoal entre um enfermeiro e uma pessoa, ou entre um enfermeiro e um grupo de pessoas (família ou comunidades) para se perceber que algo estará a faltar, pelo menos no que foi dado a observar. E, mais especificamente a competência Estabelece uma comunicação e relações interpessoais eficazes com o seu descritivo: O enfermeiro estabelece relações terapêuticas com o cliente e/ou cuidadores, através da utilização de comunicação apropriada e capacidades interpessoais (OE, 2012, p.18). Já no que se refere à competência Utiliza o Processo de Enfermagem, um dos critérios de competência (48) Garante que o cliente e/ou os cuidadores recebem e compreendem a informação na qual baseiam o consentimento dos cuidados está directamente relacionado com situações observadas como por exemplo a administração de terapêutica oral antes de ir para o bloco operatório sem qualquer informação, ou noutro momento apenas “vamos dar aqui uma injecção na barriga”.
O que importa aqui é provocar uma reflexão mais ampla sobre estes indícios de que a enfermagem, tal como é descrita nos referenciais em uso poderá estar a extinguir-se. Para quem está comprometido com o ensino de enfermagem e a formação dos enfermeiros, esta não é de modo nenhum uma questão menor. Pode ser o emergir de uma tendência de que já me vinha dando conta tanto no contacto com os serviços onde acompanho estudantes em ensino clínico, como em outras ocasiões em que por acompanhar familiares entrei em serviços de saúde quase como “cliente mistério”. É necessário identificar se esta falta de enfermagem está mais relacionada com aspectos da formação ou da socialização profissional, se tem a ver com alguma directiva dos serviços ou é uma estratégia de fuga  dos jovens enfermeiros para não se confrontarem com ainda alguma inexperiência.
Uma investigação sobre as práticas trará certamente alguma luz sobre o assunto. Entretanto é prudente estarmos alerta face a estes sinais de que em algumas situações os enfermeiros seriam até dispensáveis. Bastaria que uns quaisquer técnicos de administração de terapêutica na dependência dos médicos assegurasse o cumprimento das prescrições, a vigilância dos sinais vitais e outra informação relativa ao tratamento da doença, o resto faria o pessoal auxiliar, também designado de “acção médica”, eventualmente com mais humanidade espontânea na relação com o doente e os familiares.
O perigo de esvaziamento da profissão pode estar a ser induzido pelos próprios enfermeiros, com alguma inconsciência sobre as potenciais consequências.



OE (2012). Regulamento do Perfil de Competências do Enfermeiro de Cuidados Gerais. Acedido em http://www.ordemenfermeiros.pt/publicacoes/Documents/divulgar%20-%20regulamento%20do%20perfil_VF.pdf a 27 de Outubro de 2013.

domingo, 31 de março de 2013

Semear (ou a semiótica da cultura)



"É preciso fazer alguma coisa antes que alguma coisa se faça contra nós"
(António Sampaio da Nóvoa)

A cultura deve ser das poucas armas eficazes contra todas as opressões. E a maior das opressões é a ignorância e o obscurantismo, mas também o pseudo-conhecimento com que muitas vezes nos distraem e que por dever de carreira somos obrigados a deglutir, a ruminar e, eventualmente, a regurgitar para alimentar discípulos para assegurar que esta civilização se reproduz.
Estudar é preciso. Sim. Dentro e fora das escolas. Sobretudo fora e para além do ensino formal, no sentido de desenvolver um sentido crítico capaz de distinguir o saber que aliena daquele que liberta e constrói. Só os ingénuos, como diria Paulo Freire, podem esperar que os que dominam o sistema  desenvolvam uma educação que permita aos dominados entender de forma crítica a injustiça social.
É preciso fazer alguma coisa. Essa coisa pode ser uma semente ou uma pergunta simples (às vezes pouco educada) ou um desafio. Estou a pensar no que podem fazer os professores para inquietar intelectualmente os estudantes.
É preciso fazer alguma coisa. E essa coisa é que é linda!

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Uma questão de urgência

Todos sabemos (e uns quantos insistem em não querer ver) que estamos a assistir a um desmanchar de um país que mal ou bem se foi construindo e até foi capaz de organizar respostas para algumas necessidades da população. Se considerarmos dois dos sectores fundamentais pelos quais se pode avaliar o nível de desenvolvimento de uma sociedade - a educação e a saúde - encontramos indicadores objectivos de um impressionante percurso ao longo das últimas três ou quatro ou cinco décadas. Mas a educação e a saúde também se foram tornando negócio e quando uns poucos ganham muito dinheiro e enriquecem à custa daquilo que é um direito de todos, é claro que a maioria da população fica mais pobre e mais mal servida.
O que é um bem público e um direito conquistado pela civilização (há quem lhe chame com algum desprezo "adquirido") só pode ser mantido numa lógica mutualista em que contribuem mais os que mais podem para que todos possam beneficiar de acordo com as suas necessidades. Dito assim, até parece um refrão "comunista", mas a história sabe que o chamado "estado social" é uma criação dos sectores de inspiração mais ou menos social democrata, da qual quase toda a direita europeia de hoje se reclama ou já se reclamou.
Portugal está a ser sujeito a um ataque de um cartel de interesses que se foi instalando no Estado, prevertendo o seu papel de prestador de serviço público e neutralizando, igualmente, o seu poder regulador. O que se passa no ensino é, como noutros sectores, uma sujeição ao negócio privado que colonizou o serviço público, primeiro com uma hiper-oferta  em quase cada canto do país, depois (ou se calhar sempre) com a exigência de financiamento frequentemente sem uma justa prestação de contas.
O futuro de alguns cursos do ensino superior público está a ser jogado numa espécie de roleta russa. É verdade que se multiplicaram cursos sem muito sentido e sem uma avaliação clara da sua necessidade, num movimento em muito empurrado pela proliferação do ensino privado e pelas lógicas de financiamento - era necessário diversificar a oferta, angariar mais alunos, gerar mais receitas próprias. Nada disto é mau por si só. Alguma concorrência entre o sector público e o privado pode ser estimulante, desde que o jogo não seja viciado à partida e o nível de exigência possa ser equilibrado, coisa que nem sempre tem acontecido.
Vem este intróito a propósito de uma convocatória recebida por e-mail da directora do curso de enfermagem, no dia 16 de Janeiro último com o seguinte teor:

Enviada: quarta-feira, 16 de Janeiro de 2013 13:20
Assunto: REUNiÃOO URGENTE!!!

     Convocatória

   Convoco todos os Professores para uma reunião URGENTE no dia  5 de
 fevereiro às 14.30.

 Ordem de trabalhos

 !- O futuro do Curso de Enfermagem no Algarve.

 Muito obrigada pela vosa comparência

 A Diretora de Curso

Dois aspectos me intrigaram de imediato. Primeiro, a urgência triplamente exclamada no assunto e praticamente gritada no corpo da convocatória, quando afinal era para dali a três semanas, menos um dia.
Depois, a "ordem de trabalhos" com um ponto único: "O futuro do Curso de Enfermagem no Algarve". Talvez pelo vício entranhado de ser um curioso do estudo da comunicação não consigo travar esta tendência para me pôr logo a analisar o significado destas mensagens e as suas eventuais contradições e também não resisto ao deslise para um registo mais lúdico dessas interpretações. É um jogo que nem sempre é entendido pelas cabeças menos flexíveis e menos habituadas ao humor. Perigoso, eu sei.
Mas vamos ao que interessa que a coisa pode até ser séria.
Este enunciado de "ordem de trabalhos" pode ser lido de várias formas. A uma delas, a dramática (chamo-lhe eu assim) pude assistir ainda antes de ler a convocatória, vendo sair de um gabinete onde presumo que se tenha falado no assunto, pelo menos duas colegas com ar bastante preocupado e com lágrimas nos olhos. A outra (é mais a minha), a especulativa (sei que alguns poderão achar delirante, inconsciente, desconsiderante ou desrespeitosa - talvez seja apenas cínica, no sentido filosófico) a que leva a explorar outros caminhos. Desconstruindo o contexto, podemos até entrar numa autoestrada de ironia, sem portagens, sem custos para o utilizador apesar de sabermos que a pagamos por outra via. Ora, ir para uma reunião sem me preparar é coisa que habitualmente não me aconselho. Em regra estudo a documentação disponível, a informação prestada, a problemática em que se inscreve o assunto... Desta vez só sei que vamos discutir (?) o "futuro", coisa que muita gente diz que "a deus pertence", mas isso não é coisa que não adianta nada ateu e, seguramente, a um crente também não. Mas peguemos assim o futuro nesta cernelha e interroguemo-nos. Qual pode ser o meu contributo para esta discussão? Pensei e voltei a pensar e embora me custe admitir, não sei. A pergunta até poderia estar mal feita, mas concedam-me este crédito. Tenho uma longa experiência de reuniões, assembleias, meetings, conclaves, seminários, simpósios, conferências, colóquios, paletras, charlas, tertúlias e muitos jantares e sei da justeza da pergunta. Até tenho uma espécie de corolário: "se não sabes o que lá vais fazer, por que vais?". Mas desta vez a coisa está feia. Embora não acredite sequer que "las hay, las hay..." vejo na condição de ter que me sujeitar aos terenos exotéricos e não me resta outra alternativa que não tomá-los como válidos. Assim, compulsados os factos resultantes da observação dos astros, da leitura das cartas da maya, dos búzios da mãe de santo, das miudezas de um frango de aviário e principalmente da leitura das auras do curso, estou mais ou menos em condições de afirmar que o futuro do curso de enfermagem é radioso (aura de luz branca com ondas douradas), portanto, nada a temer. E como li algures qualquer coisa relacionada com profecias que se autocumprem, só temos mesmo é que profetizar.
É claro que teria preferido uma abordagem mais científica, ou, pelo menos mais racional, mas para isso precisava de ter alguma informação.
imagem roubada daqui
A ignorância torna-nos crentes. Valha-nos então santa bárbara que eu nem sei quem é e que sempre ouvi dizer que é de quem só nos lembramos quando faz trovões.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Orientação tutorial: algumas reflexões sobre uma prática pedagógica

Está ainda a decorrer uma unidade curricular no Curso de Licenciatura em Enfermagem constituída exclusivamente por horas de orientação tutorial (OT). São 32 horas de contacto em sala de aula ou em outro espaço a que se somam mais cerca de 30 horas de orientação individual ou de pequenos grupos. Esta unidade curricular situa-se no 3º ano/1º semestre do Curso, tem a designação de “Comunicação e Relação em Enfermagem III” (CRE III), sou eu o titular e único docente e, embora venha acompanhando este grupo de estudantes desde o primeiro ano (CRE I e CRE II) é a primeira vez que coordeno uma unidade com estas características.
Para além de tudo o que se possa dizer sobre a importância da relação e da comunicação nos cuidados de enfermagem, interessa também explicitar de alguma forma a visão que se tem da aprendizagem (às vezes apetece-me dizer, descoberta) enquanto processo de construção de competências tão genéricas como transversais que necessariamente incluirão a capacidade de mobilizar os saberes, as habilidades, as atitudes adequadas num determinado momento e situação específica. O desenvolvimento das capacidades de comunicação faz-se num continuum ao longo da vida e esse processo não é igual para todos. É a partir das capacidades de autoconhecimento, de observação, de escuta, de atenção e também de reflexão e tomada de consciência daquilo que se comunica que se pode promover o desenvolvimento adequado da comunicação e relação e a sua orientação para as necessidades da prática dos cuidados de enfermagem.
O desenho destas unidades curriculares ao longo dos três primeiros anos reflecte, de alguma forma, esta progressão que vai desde a compreensão mais genérica dos mecanismos presentes e que influenciam a comunicação até a um nível de aplicabilidade que começa a ser efectivo, espera-se, durantes as experiências de Ensino Clínico.
Este ano, ao planear a unidade curricular e depois de conferir com as colegas anteriormente responsáveis por ela, decidi não me afastar muito do que vinha sendo realizado, mantendo aproximadamente os mesmos conteúdos, aos quais juntei uma abordagem mais estruturada à utilização das TIC, a comunicação em rede em particular no que se designa por web 2.0.
Do ponto de vista metodológico e em conformidade com a determinação curricular de só contar com tempos de OT, propus aos estudantes o desenvolvimento de um projecto de intervenção no âmbito da comunicação e relação em enfermagem e enquadrado nos objectivos de aprendizagem desta unidade curricular. Os estudantes teriam toda a liberdade para construir uma problemática e definir uma população-alvo para a intervenção. Ao docente caberia o papel de orientar e ajudar cada grupo a estruturar o seu projecto, gerir as sessões de grupo em sala de aula para partilha das ideias, discussão colectiva e interajuda, bem como a identificação de dificuldades comuns e a abordagem teórica de alguns aspectos de interesse para todos.
Para além disso e procurando incluir alguma prática de uso das tecnologias de comunicação em rede foi proposto que cada grupo criasse uma página temática na internet (blog, e-portefolio, wiki, etc.) para ir reportando ao longo do semestre a evolução do trabalho, as dificuldades, as decisões e de modo que isso pudesse ser visto e comentado pelos colegas e pelo docente.
A par de todo este processo que incluiu sempre e com bastante frequência sessões de orientação presencial, foi desenvolvida uma tutoria à distância – uma espécie de e-tutoring ou de e-coaching – via correio electrónico que se revelou bastante produtivo.
As sucessivas versões do projecto (ou apenas ideias iniciais ou partes do projecto) foram chegando sem horas nem dias marcados e apenas em incidentais excepções a demora na resposta ultrapassou as 48 horas. Este método demonstrou para já ter um potencial muitas vezes ignorado pelos docentes e formadores e que talvez por isso seja pouco explorado e praticado.
A forma como tem decorrido permite já verificar alguns aspectos que merecem uma atenção futura e eventualmente um estudo mais aprofundado.
Há vários indícios de que este processo promove uma maior autonomia dos estudantes e em boa parte deles, uma subida do nível de exigência face ao docente. Por outro lado, o feedback atempado e oportuno do docente estimula a progressão, a clarificação das ideias, a desconstrução de uma série de lugares comuns habitualmente usados nos trabalhos académicos e encoraja o enfrentamento das próprias dificuldades.
O respeito pelos diferentes ritmos de trabalho e de envolvimento dos estudantes é uma questão fundamental que, enquanto tutor também me faz reflectir sobre as pontes que se estabelecem com os princípios da relação de ajuda que é, afinal, o nosso principal objecto e, simultaneamente, instrumento de trabalho.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Novos caminhos para a problemática do envelhecimento

Participar no ensino de enfermagem é, de alguma forma contribuir para a construção do futuro de uma profissão e, talvez mais do que isso antecipar alguma melhoria nos cuidados de saúde e na resolução dos problemas da população. Desde que me lembro, tenho colocado a mim mesmo a questão "que farão os enfermeiros daqui a uns anos?"; "o que é que lhes vai ser pedido pelas populações e pelas instituições?"; " o que terão para oferecer de novo (ou talvez não) que possa marcar a especificidade da profissão?". Nos momentos mais críticos (eventualmente os mais lúcidos) chego a questionar a própria existência desta profissão: "estará em vias de extinção?". Acharão alguns que este pessimismo não ajuda nada, mas presumo que algumas espécies ainda existem, justamente por terem sido declaradas "em vias de extinção" e, tal como na natureza é importante a biodiversidade, na saúde é-o a pluridisplinaridade.
A enfermagem afirmar-se-á e construirá o seu futuro (quiçá, a sua sobrevivência) se conseguir produzir um conteúdo próprio e uma intervenção reconhecida e reconhecível. Não é preciso inventar nada (e nem sequer as mais recentes profissões que surgiram na área da saúde o tiveram que fazer); a enfermagem tem uma matriz que resiste à idade e lhe permite incorporar novos saberes, novas técnicas e sobretudo novos paradigmas sem se descaracterizar. Em contrapartida, sofre de uma dificuldade crónica de se comunicar, de se dizer nas práticas e, mesmo no plano da retórica que constrói para si mesmo, o discurso raramente passa para o espaço público.
Há muito que penso que a base mais segura da enfermagem consiste naquilo que alguns chamam o "cuidado relacional" e isso permitiria lançar mão a todas as formas de intervenção e integrá-las na lógica dos cuidados de enfermagem que pode ser traduzida mais ou menos como a ajuda às pessoas e grupos sociais a serem mais autónomos na prevenção e resolução dos seus problemas de saúde. Assim, os enfermeiros não precisam ser psicoterapeutas, fisioterapeutas, massagistas, musicoterapeutas, dramaterapeutas, guias turísticos, peritos em gestão doméstica, nutricionistas, etc. para utilizar os saberes e as técnicas desenvolvidos pelos especialistas nessas áreas e incorporá-los nas suas actividades de cuidados.
Um estudo recente que acabei de ler, parece-me estar bastante nesta linha e oferece um magnífico campo de reflexão para os enfermeiros, numa área particular, mas com uma preponderância crescente no campo dos cuidados de saúde.


Alguns exemplos de interveções usadas:
  • skills training and education for caregivers;  
  • activity planning and modifying the patient's environment;  
  • enhancing caregiver support through Web sites, telephone calls, and family counseling;  
  • self-care techniques for caregivers, including stress management and music therapy;  
  • collaborative care with a healthcare professional; and/or  
  • exercise programs for the patient.  
Num período de tempo que vai das 6 semanas aos 24 meses.

Nas conclusões do estudo pode ler-se:
Nonpharmacological interventions delivered by family caregivers have the potential to reduce the frequency and severity of behavioral and psychological symptoms of dementia, with effect sizes at least equaling those of pharmacotherapy, as well as to reduce caregivers’ adverse reactions. The successful interventions identified included approximately nine to 12 sessions tailored to the needs of the person with dementia and the caregiver and were delivered individually in the home using multiple components over 3–6 months with periodic follow-up.

Ler também:
Meta-Analysis of Nonpharmacological Interventions for Neuropsychiatric Symptoms of Dementia
Good News for Dementia Care: Caregiver Interventions Reduce Behavioral Symptoms in People With Dementia and Family Distress

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Examining the Aesthetic Dimensions of Teaching


Relationships between teacher knowledge, Identity and Passion

Linda Hobbs
Universidade de Deakin, Austrália


13 de setembro de 2012
18h00 - 19h30
Sala 7 | IEUL
Abstract
Having an appreciation for the subject, their students and what the subject can offer their students has both cognitive and emotional dimensions for teachers. This paper uses empirical data to explore the efficacy of a Deweyan inspired framework called “Aesthetic Understanding” to scrutinise relationships between teacher knowledge, identity and passion. The paper uses case study data of three teachers of maths and/or science generated from a video study to illustrate the relationships between the three elements of Aesthetic Understanding. The need to value the aesthetic dimensions of teaching when examining the subject-specific nature of secondary teaching is discussed.



Linda Hobbs
Dr Linda Hobbs (formerly Linda Darby) is a Senior Lecturer in Science Education at Deakin University. Linda has lectured in primary and secondary science education and education generally for the past 12 years. Linda publishes in the areas of pedagogical theory, and teacher development, identity and experiences, mainly within the contexts of mathematics and science teaching.
Her PhD thesis, completed in 2009, explored subject differences between mathematics and science. Such comparisons focused on differing predominant pedagogies arising out of the demands of the subject, how story arises and is used to humanize the subject, and how the aesthetic dimensions (knowledge, identity and passion) of what it means to be a teacher are shaped by subject differences. Many of these ideas are published internationally. Her latest research focuses on the issues around teaching out-of-field in maths and science, specifically issues relating to teacher identity and support.
http://www.deakin.edu.au/arts-ed/education/staff-directory2.php?username=lhobbs










http://www.ie.ul.pt/portal/page?_pageid=406,1600561&_dad=portal&_schema=PORTAL