terça-feira, 12 de julho de 2016
Michel Foucault Poder e Saber
Penso muito sobre de onde me vem tamanha curiosidade sobre os diversos aspectos da loucura. Sempre lembro de me tentarem assustar com aqueles a quem chamavam loucos, mas isso em mim tinha um efeito contrário. Sentia-me atraído pela sua estranha diferença e o que mais queria era perceber como é que eles viam o mundo.
Muito antes de começar a estudar estes fenómenos já eu tinha um mundo de interrogações que não sendo ainda científicas, também já não eram as do senso comum. Ouvia falar de que alguns eram internados e presos com coletes de forças e levavam choques eléctricos... E via-os mais tarde regressar com olhos mortiços e os corpos parados e ouvia que estavam melhores, mas eu via-os quase sem vida... Falava-se de que o Joaquim da Alice andava com uma "cisma" e eu via-o encostado a uma parede, calado, com os olhos no chão , num movimento lento e repetido ia escavando um buraco no chão com o bico da bota...
Mais tarde comecei a estudar estas coisas. Ainda não desisti.
sexta-feira, 15 de maio de 2015
O mito da equipa multidisciplinar
A enfermagem deve ser das profissões da saúde que mais advoga o trabalho em equipa e assume fazer parte de uma equipa multidisciplinar ou pluridisciplinar. É quase um cliché e uma retórica mantida ao longo de décadas, mas qual é o seu verdadeiro significado? Por que é que este tema é tão caro aos enfermeiros e às enfermeiras e igualmente aos responsáveis pela sua formação, os docentes dos cursos de enfermagem? Vejamos alguns exemplos:
"Atualmente, o enfermeiro é visto como um profissional altamente qualificado, e autónomo, competente e integrante duma equipe multidisciplinar, sendo o elo de ligação, entre o cliente/população e a restante equipa de saúde […e ] será aquele capaz de se inserir como promotor de saúde, dos projetos individuais de cada utente e, ao mesmo tempo, promover a adaptação das diferentes respostas humanas aos processos patológicos que possam existir, integrado numa equipe multiprofissional, possuindo a habilidade e destreza manual e mental para utilizar os mais sofisticados equipamentos advindos da moderna tecnologia de suporte avançado de vida […] o enfermeiro atua interagindo com os demais elementos inseridos no sistema de cuidados em saúde"(Lemos, s.d.).No mesmo texto, Lígia Lemos refere-se três vezes à ideia do trabalho numa equipa multidisciplinar ou multiprofissional – o que não será bem a mesma coisa – deixando ver que se trata de algo importante na caracterização do trabalho dos enfermeiros, mas sem nunca se deter em alguma análise ou descrição sobre a natureza dessa relação. Tudo parece um adquirido, suficientemente entendido no espaço disciplinar e da enfermagem, mas sê-lo-á para os outros profissionais? Marília Neves, num artigo de revisão sobre o papel do enfermeiro na equipa multidisciplinar parece chegar à conclusão que
"O papel profissional do enfermeiro na equipa multidisciplinar dos Cuidados de Saúde Primários surge pouco explícito, com tendência a uma perceção estereotipada pelos outros profissionais, mas começando a emergir algumas expectativas por parte dos utentes que o percebem como facilitador no acesso aos cuidados, valorizando as suas competências relacionais e culturais" (Neves, 2012).É interessante esta dualidade observada entre a visão “estereotipada” dos outros profissionais e a percepção daqueles que são os beneficiários dos cuidados de saúde. Há algo de paradoxal nesta formulação (e em muitas outras que poderíamos tomar como exemplo) em que um desejo de afirmação profissional através da pertença a uma equipa acaba por ser ver negado na prática, a favor de uma relação de entendimento onde ela é efectivamente primordial. Seria talvez leviano colocar em causa a existência de uma equipa de cuidados, até porque as problemáticas humanas têm uma extensão e uma magnitude que ultrapassa a capacidade e o conhecimento de uma só disciplina ou de uma só profissão, mas não parece de todo descabido o aprofundamento de uma reflexão sobre o assunto.
O conhecimento e as técnicas de intervenção foram-se especializando e dividindo tanto em ordem ao seu objecto cada vez mais específico quanto em ordem aos instrumentos e métodos utilizados (Delattre, 1992) produzindo disciplinas e desenvolvendo linguagens que podem chegar a ser quase incompreensíveis mesmo dentro do mesmo campo de intervenção. Esta é uma problemática também interessante a ser analisada na óptica da comunicação interdisciplinar e vamos deixá-la por agora em benefício de uma compreensão mais ampla do significado da retórica sobre a equipa multidisciplinar ou pluridisciplinar como alguns preferem. A pluridisciplinaridade, entendida como “uma simples associação de disciplinas que concorrem para uma realização comum, mas sem que cada disciplina tenha que modificar significativamente a sua própria visão das coisas e os seus próprios métodos” (Delattre, 1992) existe desde sempre e por si só não caracteriza nenhum modo particular de acção; ela existe na saúde e em qualquer outra actividade onde se juntam profissionais diferentes.
A constatação do trabalho pluridisciplinar na saúde, por si só não justificaria tão empenhada defesa da enfermagem do tema, profusamente nomeado e raramente analisado. Há, provavelmente, algo de oculto, de não dito, a passar debaixo dos discursos sobre a equipa pluridisciplinar; é isso que me parece importante examinar. Podemos estar a falar de um desejo de participação mais efectiva nas decisões sobre o planeamento e a orientação dos cuidados de saúde (Neves, 2012) e do correspondente reconhecimento dos contributos dos enfermeiros e isso significa um verdadeiro desafio não só para os profissionais de enfermagem como para os que produzem conhecimento sobre a profissão. A questão é que a pluridisciplinaridade está garantida à partida pela simples presença de vários profissionais vindos de áreas disciplinares afins, mas distintas; mas esse facto não chega para garantir a existência de uma equipa da mesma forma que um monte de tijolos não chega a ser uma casa. Quer isto dizer que o fundamental estará sempre na relação que se estabelece entre os diferentes participantes e não na sua mera presença e, como esta relação é altamente condicionada por questões de estatuto, de poder, de autoridade e liderança muitas vezes não explícitas, o que se assiste em regra é a um evitamento tácito dos vários níveis de confronto facilmente previsíveis. Uma boa parte da literatura citada por Neves (2012) na realidade aborda é a questão da interdisciplinaridade e são vários os estudos que colhem e analisam a perspectiva do cliente, constatando que “a interdisciplinaridade foi percebida como uma melhoria nos cuidados de saúde prestados ao utente e à população”. Ainda assim, esta percepção sobre o resultado não desoculta o que se passa na black box do processo de funcionamento da equipa. Haverá realmente trabalho interdisciplinar em equipa? É a interdisciplinaridade que pode formar uma equipa e produzir melhores resultados em saúde, mas contrariamente ao conceito simples de pluridisciplinaridade, aqui há a constituição de “um formalismo suficientemente geral e preciso que permita exprimir numa linguagem única os conceitos, as preocupações, os contributos de um número maior ou menor de disciplinas, que de outro modo, permaneceriam fechadas nas suas linguagens especializadas” (Delattre, 1992).
É aqui que reside o principal desafio para a enfermagem. É preciso estar-se muito seguro da especificidade dos saberes próprios, dos métodos de abordagem da realidade e dos instrumentos técnicos específicos para entrar adequadamente num processo de integração de saberes. Fica para outra reflexão a análise de alguns aspectos particulares da comunicação em saúde e as problemáticas da investigação interdisciplinar.
Referências
Delattre, Pierre (1992). Investigações interdisciplinares: objectivos e dificuldades. In H. Guimarães; J. Conceição; O. Pombo; T. Levy (orgs.) Antologia II, Lisboa: Projecto Mathesis/ Dep. De Educação da Faculdade de Ciências de Lisboa.
Lemos, Lígia (s.d.). A visibilidade da Enfermagem. Ordem dos Enfermeiros. [http://www.ordemenfermeiros.pt/sites/madeira/informacao/Documents/Artigos%20Enfermeiros/A%20Visibilidade%20da%20Enfermagem,%20por%20Enf%20l%C3%ADgia%20Lemos%20Enfermeira%20Especialista%20em%20Sa%C3%BAde%20Materna%20e%20Obst%C3%A9trica.pdf]. Neves, Marília (2012). O papel dos enfermeiros na equipa multidisciplinar em Cuidados de Saúde Primários – Revisão sistemática da literatura. Coimbra: Revista de Enfermagem Referência, vol.ser III (8) dez.2012 [http://www.scielo.oces.mctes.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0874-02832012000300013].
quarta-feira, 1 de outubro de 2014
Desanormalidades
As
minhas reflexões sobre a saúde mental e um enorme conjunto de
circunstâncias associadas a esta noção começaram há muitos anos. Primeiro, com
o deslumbramento de quem está a descobrir o conhecimento novo e a crença de que
com isso ficamos equipados para melhor compreender os outros e o mundo. Ainda
hoje, continuo a acreditar que isso é verdade. Depois começa a nascer uma
dúvida aqui, outra ali; começamos a ler perspectivas diferentes sobre as mesmas
problemáticas e, sobretudo começamos a tomar consciência do que se passa com
pessoas, com a sua existência, apanhadas nas malhas da psiquiatria.
"Psiquiatria"
é uma palavra muito ambígua. Eu que gosto das palavras seria talvez capaz de
escrever um tratado, apenas sobre esta palavra. Ela designa tanto um
conhecimento médico como um sistema que tanto pode ser de
"tratamento", capaz de ajudar pessoas em dificuldade, como um sistema
repressivo e de encarceramento mais violento e mais cruel que o pior dos
sistemas judiciários. Sobre o bom e o mau da psiquiatria, sobre a genialidade
de alguns actores e a completa idiotice de outros ao longo da sua já longa
história (e refiro-me apenas ao período dito científico) já muito se escreveu,
muita polémica correu, sobretudo na segunda metade do século vinte. A
psiquiatria é também e sempre foi um poder. Um poder especial, não
completamente destituído de escrutínio, mas quase. A história da psiquiatria
está repleta de criminosa desumanidade impune. Mais facilmente se julga um acto
de sevícias numa prisão do que num hospital psiquiátrico. Ainda que actualmente
a situação esteja diferente, o estado de direito não se aplica muito na
psiquiatria que muitas vezes parece realmente um "estado de excepção"
legalmente autorizado.
Um conto
de García Márquez em Doze Contos Peregrinos (1994, Lisboa: Editores
Reunidos) conta a história de uma mulher apanhada pelas malhas deste sistema
psiquiátrico e o "tratamento" a que é sujeita para uma
"patologia" inexistente. O conto chama-se "Só vim fazer um
telefonema" e vale a pena ler.
A
psiquiatria usa um poder que lhe vem de um saber especializado, para agir sobre
a vida das pessoas. Decide que uma pessoa tem uma determinada patologia
confirmada por um conjunto de sinais e sintomas interpretados de acordo com um
quadro de referência partilhado pela comunidade científica. Estes quadros de
referência, para além do saber clínico de base, da semiologia e da hermenêutica
médica estão em grande parte traduzidos nos sistemas de classificação das
perturbações mentais, dos quais o mais conhecido é o DSM (acrónimo
de Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders) que já vai na sua quinta edição. Este "catálogo de doenças",
tomado quase como uma bíblia para muitos psiquiatras é, por outro lado uma
espécie de "código penal" se o olharmos do ponto de vista das suas
consequências na vida do cidadão comum que procura ajuda num sistema que se
oferece com essa missão.
Ora, Allen Frances, professor emérito, ex-director do departamento de psiquiatria da Duke University nos EUA e que foi presidente do grupo de trabalho da DSM-IV vem agora dizer, numa entrevista publicada no El País (na sua edição brasileira) que afinal cometeram um grande erro ao transformarem os problemas comuns das pessoas em perturbações mentais, doenças que devem ser tratadas, portanto. E não esconde a mais do que óbvia influência da indústria farmacêutica nisto tudo. É pois necessário convencer as pessoas que estão doentes e que precisam de tomar medicamentos!Chegamos assim ao negócio legal da droga. E andamos preocupados com uns putos que fumam uns charros.
segunda-feira, 28 de outubro de 2013
O hospital visto do lado de cá
Passei dois dias dentro de um hospital porque a C. foi
operada. Entrou no próprio dia de manhã bem cedo e, como ainda não tinha um
quarto vago no internamento fez a sua preparação no ambulatório e daí seguiu
para o bloco operatório onde entrou pouco passava das 10 horas.
Nessa altura saí para o exterior. Fui comer e deixei-me
ficar na pastelaria a ler até cerca do meio-dia. Voltei ao hospital e dirigi-me
ao bloco. Há um serviço de informações onde podemos ir sabendo do trajecto da
pessoa. A informação dada por uma administrativa foi de que tinha acabado de
sair da sala de operações e estava agora no “recobro”. Não consegui saber mais
nada, mas ainda era cedo e presumi que estava tudo dentro da normalidade. Mais
pessoas tentavam saber dos familiares e vi entrar um enfermeiro com uma
auxiliar e saírem pouco depois trazendo na cama com um doente recém-operado.
Fiquei por ali, no corredor aproveitando o tempo de espera
em leitura, mas também observando o movimento relativamente calmo do hospital.
Percebo que estamos na hora de almoço e a frequência com que passam pessoas
fardadas diminui significativamente. Reconheço um empregado da pastelaria onde
também servem refeições que veio trazer algumas refeições. Vem até munido de um
terminal para pagamento com multibanco.
Volto às informações e sou novamente recebido com simpatia
pela mesma funcionária que me diz que a dona C. deve sair por volta das 13:30;
que vai para o piso dois, cama 217 e que posso aguardar lá. São 13:15. Fico por
ali mais um pouco, tentando perceber por que porta sairá a C. para a poder
acompanhar logo. No corredor há mais gente igualmente ansiosa. Volto à zona de
informações que é já dentro do bloco e no corredor por onde vejo sair os
doentes do recobro. Vejo o enfermeiro que levou a C. para o bloco; reconhece-me
e sorri. Pergunto se a vai buscar, mas não. Ele é do ambulatório e vai buscar
outra pessoa. Na volta diz-me que ela já acordou e está bem. A funcionária que
me deu informações diz-me que não posso permanecer ali. Mas eu quero ver a C.
logo à saída. Explica-me que sobe pelo elevador interno e sai no segundo piso.
Vou para o segundo piso e dirijo-me ao posto de enfermagem, digo que sou
familiar de C. que está prestes a vir do bloco para a cama 217. A enfermeira
diz-me que se quiser posso aguardar no quarto. Pergunto por que ainda não veio
e a resposta é quase seca: “ainda não tivemos oportunidade”. É a hora de
almoço, pensei. Fui ao quarto, mas saí pouco depois e vim para o corredor. Vejo
sair uma enfermeira com uma auxiliar e pergunto se a vão buscar. Confirmam que
sim e eu sigo mais devagar atrás delas. A porta por onde sairá a C. fica no
fundo do corredor. Não demoraram muito. Pouco passa das 14:30 e a porta
abre-se. A C. vem na cama com uma bolsa de soro pendurado, vê-me e acena com a
mão e um sorriso. Está acordadíssima e parece-me bem.
A partir daí estive quase todo o tempo no quarto até cerca
das 23 horas e no dia seguinte, das 11 às 14 horas, momento em que a C. saiu
com alta.
Posso considerar esta experiência como uma visita de
observação do funcionamento actual de um hospital que é privado, situado na
cidade de Lisboa. Tudo aconteceu nos dias 23 e 24 de Outubro de 2013.
Acrescente-se que já tinha tido, eu próprio, uma experiência de internamento, para
um intervenção de neurocirurgia para correcção de uma hérnia discal e a
observação dessa altura (2010) não difere muito desta.
As instalações e a
actividade geral
A primeira impressão é de que entramos num hotel. A
decoração, o design dos percursos, o atendimento, tudo parece concebido para
eliminar o “cheiro” clínico. O bacão de atendimento procede ao “check in” e ao “check
out” com a natural neutralidade de qualquer estabelecimento hoteleiro, tirando
talvez a máquina de dispensa de senhas numeradas (aí faz mais lembrar um banco,
ou uma repartição de finanças). A funcionária trata-nos com profissional
simpatia e cobra adiantado de acordo com o orçamento.
Percebe-se que se está numa organização pensada ao milímetro
e nota-se o sentido de eficiência também no “staff” que cumpre uma espécie de
encenação eventualmente sujeita a alguns deslizes. Há um fenómeno bastante
ubíquo que é o dos profissionais “em sua casa” como que “apagarem” a existência
dos outros, os paradoxalmente estranhos –os clientes – quando, noutro registo
são tidos como toda a razão do serviço que prestam. Desde a conversa sobre
assuntos privados e de circunstância até uma jocosa reprimenda (“funcionário
administrativo ou chega a horas, ou chega cedo”) tudo se pode ouvir enquanto se
espera, já no interior de um serviço.
O que fazem os
enfermeiros
Não tive oportunidade de perceber se a dotação de
enfermeiros por turno é a adequada por não ter uma dimensão concreta do
serviço, nem do nível de dependência dos doentes, contudo não me pareceram
assoberbados com trabalho ou apressados. Parece que tudo corre com alguma calma.
O posto de enfermagem não sendo propriamente um panóptico tem uma localização
aberta, quase central, do tipo balcão secretária. É aí que os enfermeiros fazem
os registos num terminal de computador e actualizam outro tipo de documentação.
Uma sala de trabalho de enfermagem e uma outra dependência menos visível completam
este espaço.
A equipa de enfermagem é extraordinariamente jovem; poucos
terão mais de trinta anos e a grande maioria são mulheres.
As enfermeiras com quem contactámos foram sempre correctas
no trato, mas sentia-as pouco empenhadas na relação com a pessoa, pouco
cuidadoras. A impressão que dão é de que cumprem escrupulosamente as
prescrições, mas não criam qualquer proximidade com os doentes (a imagem que
deixam na doente C. é “as enfermeiras são pessoas que nos dão coisas para tomar”)
e não se detêm para explicar o que fazem, limitando-se a informar genericamente
(vamos ver como estão os pensos), a fazer perguntas instrumentais (tem dores?)
e mesmo quando questionadas sobre a natureza de um medicamento apenas respondem
que “é a medicação prescrita”.
A presença
A equipa de enfermagem parece cumprir um guião fortemente
instrumental e administrativo que se sobrepõe ao aspecto relacional e
expressivo. A presença junto do doente ou familiares é diminuta e nunca
aconteceu fora de qualquer procedimento objectivo. Um outro aspecto
referenciado pelo testemunho da C. é que mesmo na escassa presença as enfermeiras
apresentam uma relação muito padronizada que não tem em conta a
individualidade.
Contrastante com esta atitude, o pessoal auxiliar estabelece
uma maior proximidade e “uma relação mais humana”, como refere C., procurando
saber como a pessoa se sente e de ajuda necessita.
Reflexão crítica
Não é minha intenção estabelecer qualquer juízo avaliativo
do papel da enfermagem, até porque a observação é bastante limitada, contudo
não posso deixar de confrontar esta experiência e observação, bem como o
testemunho da doente, com aquilo que é a matriz da profissão de enfermagem, a
orientação do ensino e todo o referencial para a prática dos cuidados de
enfermagem, nomeadamente o conjunto de competências preconizado pela Ordem dos
Enfermeiros que só por si resume de forma actualizada o “estado da arte”.
Bastará citar o primeiro dos considerandos para a elaboração
do regulamento de competências (OE, 2012) onde se assume que o exercício profissional da Enfermagem
centra-se na relação interpessoal entre um enfermeiro e uma pessoa, ou entre um
enfermeiro e um grupo de pessoas (família ou comunidades) para se perceber
que algo estará a faltar, pelo menos no que foi dado a observar. E, mais especificamente
a competência Estabelece uma comunicação
e relações interpessoais eficazes com o seu descritivo: O enfermeiro estabelece relações
terapêuticas com o cliente e/ou cuidadores, através da utilização de
comunicação apropriada e capacidades interpessoais (OE, 2012, p.18). Já no
que se refere à competência Utiliza o Processo de Enfermagem, um dos critérios de competência (48) Garante que o cliente e/ou os cuidadores
recebem e compreendem a informação na qual baseiam o consentimento dos cuidados
está directamente relacionado com situações observadas como por exemplo a
administração de terapêutica oral antes de ir para o bloco operatório sem
qualquer informação, ou noutro momento apenas “vamos dar aqui uma injecção na
barriga”.
O que importa aqui é provocar uma reflexão mais ampla sobre
estes indícios de que a enfermagem, tal como é descrita nos referenciais em uso
poderá estar a extinguir-se. Para quem está comprometido com o ensino de
enfermagem e a formação dos enfermeiros, esta não é de modo nenhum uma questão
menor. Pode ser o emergir de uma tendência de que já me vinha dando conta tanto
no contacto com os serviços onde acompanho estudantes em ensino clínico, como
em outras ocasiões em que por acompanhar familiares entrei em serviços de saúde
quase como “cliente mistério”. É necessário identificar se esta falta de
enfermagem está mais relacionada com aspectos da formação ou da socialização
profissional, se tem a ver com alguma directiva dos serviços ou é uma
estratégia de fuga dos jovens enfermeiros
para não se confrontarem com ainda alguma inexperiência.
Uma investigação sobre as práticas trará certamente alguma
luz sobre o assunto. Entretanto é prudente estarmos alerta face a estes sinais
de que em algumas situações os enfermeiros seriam até dispensáveis. Bastaria
que uns quaisquer técnicos de administração de terapêutica na dependência dos
médicos assegurasse o cumprimento das prescrições, a vigilância dos sinais
vitais e outra informação relativa ao tratamento da doença, o resto faria o
pessoal auxiliar, também designado de “acção médica”, eventualmente com mais humanidade
espontânea na relação com o doente e os familiares.
O perigo de esvaziamento da profissão pode estar a ser
induzido pelos próprios enfermeiros, com alguma inconsciência sobre as
potenciais consequências.
OE (2012). Regulamento do Perfil de Competências do Enfermeiro de Cuidados
Gerais. Acedido em http://www.ordemenfermeiros.pt/publicacoes/Documents/divulgar%20-%20regulamento%20do%20perfil_VF.pdf
a 27 de Outubro de 2013.
domingo, 31 de março de 2013
Semear (ou a semiótica da cultura)
"É preciso fazer alguma coisa antes que alguma coisa se faça contra nós"
(António Sampaio da Nóvoa)
A cultura deve ser das poucas armas eficazes contra todas as opressões. E a maior das opressões é a ignorância e o obscurantismo, mas também o pseudo-conhecimento com que muitas vezes nos distraem e que por dever de carreira somos obrigados a deglutir, a ruminar e, eventualmente, a regurgitar para alimentar discípulos para assegurar que esta civilização se reproduz.
Estudar é preciso. Sim. Dentro e fora das escolas. Sobretudo fora e para além do ensino formal, no sentido de desenvolver um sentido crítico capaz de distinguir o saber que aliena daquele que liberta e constrói. Só os ingénuos, como diria Paulo Freire, podem esperar que os que dominam o sistema desenvolvam uma educação que permita aos dominados entender de forma crítica a injustiça social.
É preciso fazer alguma coisa. Essa coisa pode ser uma semente ou uma pergunta simples (às vezes pouco educada) ou um desafio. Estou a pensar no que podem fazer os professores para inquietar intelectualmente os estudantes.
É preciso fazer alguma coisa. E essa coisa é que é linda!
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013
Uma questão de urgência
Todos sabemos (e uns quantos insistem em não querer ver) que estamos a assistir a um desmanchar de um país que mal ou bem se foi construindo e até foi capaz de organizar respostas para algumas necessidades da população. Se considerarmos dois dos sectores fundamentais pelos quais se pode avaliar o nível de desenvolvimento de uma sociedade - a educação e a saúde - encontramos indicadores objectivos de um impressionante percurso ao longo das últimas três ou quatro ou cinco décadas. Mas a educação e a saúde também se foram tornando negócio e quando uns poucos ganham muito dinheiro e enriquecem à custa daquilo que é um direito de todos, é claro que a maioria da população fica mais pobre e mais mal servida.
O que é um bem público e um direito conquistado pela civilização (há quem lhe chame com algum desprezo "adquirido") só pode ser mantido numa lógica mutualista em que contribuem mais os que mais podem para que todos possam beneficiar de acordo com as suas necessidades. Dito assim, até parece um refrão "comunista", mas a história sabe que o chamado "estado social" é uma criação dos sectores de inspiração mais ou menos social democrata, da qual quase toda a direita europeia de hoje se reclama ou já se reclamou.
Portugal está a ser sujeito a um ataque de um cartel de interesses que se foi instalando no Estado, prevertendo o seu papel de prestador de serviço público e neutralizando, igualmente, o seu poder regulador. O que se passa no ensino é, como noutros sectores, uma sujeição ao negócio privado que colonizou o serviço público, primeiro com uma hiper-oferta em quase cada canto do país, depois (ou se calhar sempre) com a exigência de financiamento frequentemente sem uma justa prestação de contas.
O futuro de alguns cursos do ensino superior público está a ser jogado numa espécie de roleta russa. É verdade que se multiplicaram cursos sem muito sentido e sem uma avaliação clara da sua necessidade, num movimento em muito empurrado pela proliferação do ensino privado e pelas lógicas de financiamento - era necessário diversificar a oferta, angariar mais alunos, gerar mais receitas próprias. Nada disto é mau por si só. Alguma concorrência entre o sector público e o privado pode ser estimulante, desde que o jogo não seja viciado à partida e o nível de exigência possa ser equilibrado, coisa que nem sempre tem acontecido.
Vem este intróito a propósito de uma convocatória recebida por e-mail da directora do curso de enfermagem, no dia 16 de Janeiro último com o seguinte teor:
imagem roubada daqui
O que é um bem público e um direito conquistado pela civilização (há quem lhe chame com algum desprezo "adquirido") só pode ser mantido numa lógica mutualista em que contribuem mais os que mais podem para que todos possam beneficiar de acordo com as suas necessidades. Dito assim, até parece um refrão "comunista", mas a história sabe que o chamado "estado social" é uma criação dos sectores de inspiração mais ou menos social democrata, da qual quase toda a direita europeia de hoje se reclama ou já se reclamou.
Portugal está a ser sujeito a um ataque de um cartel de interesses que se foi instalando no Estado, prevertendo o seu papel de prestador de serviço público e neutralizando, igualmente, o seu poder regulador. O que se passa no ensino é, como noutros sectores, uma sujeição ao negócio privado que colonizou o serviço público, primeiro com uma hiper-oferta em quase cada canto do país, depois (ou se calhar sempre) com a exigência de financiamento frequentemente sem uma justa prestação de contas.
O futuro de alguns cursos do ensino superior público está a ser jogado numa espécie de roleta russa. É verdade que se multiplicaram cursos sem muito sentido e sem uma avaliação clara da sua necessidade, num movimento em muito empurrado pela proliferação do ensino privado e pelas lógicas de financiamento - era necessário diversificar a oferta, angariar mais alunos, gerar mais receitas próprias. Nada disto é mau por si só. Alguma concorrência entre o sector público e o privado pode ser estimulante, desde que o jogo não seja viciado à partida e o nível de exigência possa ser equilibrado, coisa que nem sempre tem acontecido.
Vem este intróito a propósito de uma convocatória recebida por e-mail da directora do curso de enfermagem, no dia 16 de Janeiro último com o seguinte teor:
Enviada: quarta-feira, 16 de Janeiro de 2013 13:20
Assunto: REUNiÃOO URGENTE!!!
Convocatória
Convoco todos os Professores para uma reunião URGENTE no dia 5 de
fevereiro às 14.30.
Ordem de trabalhos
!- O futuro do Curso de Enfermagem no Algarve.
Muito obrigada pela vosa comparência
A Diretora de Curso
Dois aspectos me intrigaram de imediato. Primeiro, a urgência triplamente exclamada no assunto e praticamente gritada no corpo da convocatória, quando afinal era para dali a três semanas, menos um dia.
Depois, a "ordem de trabalhos" com um ponto único: "O futuro do Curso de Enfermagem no Algarve". Talvez pelo vício entranhado de ser um curioso do estudo da comunicação não consigo travar esta tendência para me pôr logo a analisar o significado destas mensagens e as suas eventuais contradições e também não resisto ao deslise para um registo mais lúdico dessas interpretações. É um jogo que nem sempre é entendido pelas cabeças menos flexíveis e menos habituadas ao humor. Perigoso, eu sei.
Mas vamos ao que interessa que a coisa pode até ser séria.
Este enunciado de "ordem de trabalhos" pode ser lido de várias formas. A uma delas, a dramática (chamo-lhe eu assim) pude assistir ainda antes de ler a convocatória, vendo sair de um gabinete onde presumo que se tenha falado no assunto, pelo menos duas colegas com ar bastante preocupado e com lágrimas nos olhos. A outra (é mais a minha), a especulativa (sei que alguns poderão achar delirante, inconsciente, desconsiderante ou desrespeitosa - talvez seja apenas cínica, no sentido filosófico) a que leva a explorar outros caminhos. Desconstruindo o contexto, podemos até entrar numa autoestrada de ironia, sem portagens, sem custos para o utilizador apesar de sabermos que a pagamos por outra via. Ora, ir para uma reunião sem me preparar é coisa que habitualmente não me aconselho. Em regra estudo a documentação disponível, a informação prestada, a problemática em que se inscreve o assunto... Desta vez só sei que vamos discutir (?) o "futuro", coisa que muita gente diz que "a deus pertence", mas isso não é coisa que não adianta nada ateu e, seguramente, a um crente também não. Mas peguemos assim o futuro nesta cernelha e interroguemo-nos. Qual pode ser o meu contributo para esta discussão? Pensei e voltei a pensar e embora me custe admitir, não sei. A pergunta até poderia estar mal feita, mas concedam-me este crédito. Tenho uma longa experiência de reuniões, assembleias, meetings, conclaves, seminários, simpósios, conferências, colóquios, paletras, charlas, tertúlias e muitos jantares e sei da justeza da pergunta. Até tenho uma espécie de corolário: "se não sabes o que lá vais fazer, por que vais?". Mas desta vez a coisa está feia. Embora não acredite sequer que "las hay, las hay..." vejo na condição de ter que me sujeitar aos terenos exotéricos e não me resta outra alternativa que não tomá-los como válidos. Assim, compulsados os factos resultantes da observação dos astros, da leitura das cartas da maya, dos búzios da mãe de santo, das miudezas de um frango de aviário e principalmente da leitura das auras do curso, estou mais ou menos em condições de afirmar que o futuro do curso de enfermagem é radioso (aura de luz branca com ondas douradas), portanto, nada a temer. E como li algures qualquer coisa relacionada com profecias que se autocumprem, só temos mesmo é que profetizar.
É claro que teria preferido uma abordagem mais científica, ou, pelo menos mais racional, mas para isso precisava de ter alguma informação.
A ignorância torna-nos crentes. Valha-nos então santa bárbara que eu nem sei quem é e que sempre ouvi dizer que é de quem só nos lembramos quando faz trovões.
sexta-feira, 21 de dezembro de 2012
Orientação tutorial: algumas reflexões sobre uma prática pedagógica
Está ainda a decorrer uma unidade curricular no Curso de Licenciatura em Enfermagem constituída exclusivamente por horas de orientação tutorial (OT). São 32 horas de contacto em sala de aula ou em outro espaço a que se somam mais cerca de 30 horas de orientação individual ou de pequenos grupos. Esta unidade curricular situa-se no 3º ano/1º semestre do Curso, tem a designação de “Comunicação e Relação em Enfermagem III” (CRE III), sou eu o titular e único docente e, embora venha acompanhando este grupo de estudantes desde o primeiro ano (CRE I e CRE II) é a primeira vez que coordeno uma unidade com estas características.
Para além de tudo o que se possa dizer sobre a importância da relação e da comunicação nos cuidados de enfermagem, interessa também explicitar de alguma forma a visão que se tem da aprendizagem (às vezes apetece-me dizer, descoberta) enquanto processo de construção de competências tão genéricas como transversais que necessariamente incluirão a capacidade de mobilizar os saberes, as habilidades, as atitudes adequadas num determinado momento e situação específica. O desenvolvimento das capacidades de comunicação faz-se num continuum ao longo da vida e esse processo não é igual para todos. É a partir das capacidades de autoconhecimento, de observação, de escuta, de atenção e também de reflexão e tomada de consciência daquilo que se comunica que se pode promover o desenvolvimento adequado da comunicação e relação e a sua orientação para as necessidades da prática dos cuidados de enfermagem.
O desenho destas unidades curriculares ao longo dos três primeiros anos reflecte, de alguma forma, esta progressão que vai desde a compreensão mais genérica dos mecanismos presentes e que influenciam a comunicação até a um nível de aplicabilidade que começa a ser efectivo, espera-se, durantes as experiências de Ensino Clínico.
Este ano, ao planear a unidade curricular e depois de conferir com as colegas anteriormente responsáveis por ela, decidi não me afastar muito do que vinha sendo realizado, mantendo aproximadamente os mesmos conteúdos, aos quais juntei uma abordagem mais estruturada à utilização das TIC, a comunicação em rede em particular no que se designa por web 2.0.
Do ponto de vista metodológico e em conformidade com a determinação curricular de só contar com tempos de OT, propus aos estudantes o desenvolvimento de um projecto de intervenção no âmbito da comunicação e relação em enfermagem e enquadrado nos objectivos de aprendizagem desta unidade curricular. Os estudantes teriam toda a liberdade para construir uma problemática e definir uma população-alvo para a intervenção. Ao docente caberia o papel de orientar e ajudar cada grupo a estruturar o seu projecto, gerir as sessões de grupo em sala de aula para partilha das ideias, discussão colectiva e interajuda, bem como a identificação de dificuldades comuns e a abordagem teórica de alguns aspectos de interesse para todos.
Para além disso e procurando incluir alguma prática de uso das tecnologias de comunicação em rede foi proposto que cada grupo criasse uma página temática na internet (blog, e-portefolio, wiki, etc.) para ir reportando ao longo do semestre a evolução do trabalho, as dificuldades, as decisões e de modo que isso pudesse ser visto e comentado pelos colegas e pelo docente.
A par de todo este processo que incluiu sempre e com bastante frequência sessões de orientação presencial, foi desenvolvida uma tutoria à distância – uma espécie de e-tutoring ou de e-coaching – via correio electrónico que se revelou bastante produtivo.
As sucessivas versões do projecto (ou apenas ideias iniciais ou partes do projecto) foram chegando sem horas nem dias marcados e apenas em incidentais excepções a demora na resposta ultrapassou as 48 horas. Este método demonstrou para já ter um potencial muitas vezes ignorado pelos docentes e formadores e que talvez por isso seja pouco explorado e praticado.
A forma como tem decorrido permite já verificar alguns aspectos que merecem uma atenção futura e eventualmente um estudo mais aprofundado.
Há vários indícios de que este processo promove uma maior autonomia dos estudantes e em boa parte deles, uma subida do nível de exigência face ao docente. Por outro lado, o feedback atempado e oportuno do docente estimula a progressão, a clarificação das ideias, a desconstrução de uma série de lugares comuns habitualmente usados nos trabalhos académicos e encoraja o enfrentamento das próprias dificuldades.
O respeito pelos diferentes ritmos de trabalho e de envolvimento dos estudantes é uma questão fundamental que, enquanto tutor também me faz reflectir sobre as pontes que se estabelecem com os princípios da relação de ajuda que é, afinal, o nosso principal objecto e, simultaneamente, instrumento de trabalho.
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